Leito de Procusto

Eu cheguei argila na cidade e, na bagagem,

doses arriscadas de inocência.

Seguia, sintonia fina, as regras

que me desmembravam lenta e obstinadamente no leito de Procusto.


Seguia os rastros do bando,

buscando um bom posto na corrida,

por alguma coisa, mas que coisa era?

Eu não me lembro, se algum dia eu soube.


Eu alcancei a crista e, bem ali à vista,

eu fui vista de um jeito assim tão triste,

atualizando o eu-proscrito, em notas de monotonia. Infinitas reticências...


Seguia o bando,

jogava um jogo limitante e desconfortável.

Eu, distante, observava bem de perto o bando.

Não obstante, ainda assim eu ia bem demais na corrida.


O meu Eu-Espectro me tinha saudades

e visava o prêmio: o Eu-Habitante-de-Mim.

Eu, então, algoz de mim...


Era eu uma equação de perdas e conquistas em saldo negativo, uma soma de variáveis

na Terra-dos-Sem-Coração.

Eu, contínua esterilização de mim...


O jogador valia as suas escolhas vitoriosas.

E qual seria o valor do jogador que não jogaria?

Era melhor nem cogitar, tentar seguir sem captar as ondas do óbvio: as portas da rua.


Mas eu jogava bem. Tão bem jogava em

ignorar as portas da percepção

que sinalizavam, inequivocamente,

estarem trancadas todas as outras portas

e as portas do sangue - e especialmente estas!

Eu, desolação de mim...


Dragagem do meu fundo rio de ilusão...

E, na ausência de ópio, a mente, ela própria,

providenciou o oblívio e encarregou-se do opróbrio em alucinação.


A cidade-areia me apertava o nó de forca

e, em ossos cobertos de carnes,

o Eu-Alma virava pó.

Vivia uma vida que não era minha

para me tornar independente da vida que eu vivia,

mas a dívida da vida que eu levava,

cobrava juros cada vez mais altos.


Eu era tomada de assalto

pelo nexus invisível do inexistente contrato,

que a cada dia só me entristecia e enfraquecia,

consumindo o mais profundo e frágil fio de mim.


E eu ainda semeava ideias

no crescente salinizar das terras,

nas quais antes tudo dava, tudo vingava.


E, bem no olho do furacão,

eu, do centro de baixa pressão, arremessada,

naquela noite ao topo da escada,

olhando as portas do céu,

que permaneciam fechadas.


Mas há momentos em que se escolhe

quais jogos jogar.

E há momentos em que se escolhe

quais jogos abandonar.

E há um momento singular

em que se há de arremessar todas as peças

e chutar o tabuleiro.


É o momento no qual se percebe

que a alma não cabe no invólucro de contextos

e pretextos criados antes de nós.


Há o momento de desistir ou morrer,

momento de retribuir, a Procusto,

a pena do seu próprio leito.


Eu-Desconhecida-Habitante-de-Mim;

Eu, de mim, Redenção...


Deise Zandoná Flores

Este poema integra o livro

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