Política é a Esfera Mais Importante da Existência Humana?



Aqueles que advogam ser a política a esfera mais importante da vida humana frequentemente se remetem aos seus parcos conhecimentos sobre a Antiguidade para dizer: "para Aristóteles, o homem é um animal político", e "os gregos consideravam idiota aqueles que se abstinham da política". Estes cometem o tenebroso equívoco de interpretar essas ideias à luz de nossos conceitos contemporâneos. "O Homem que se revela nas obras dos grandes gregos é o homem político", diz-nos Werner Jaeger na Paideia . Esse homem político, no entanto, não é o homem físico mas o Homem ideal, um tipo fixo, um ideal da formação grega, entendida como modelagem educacional da personalidade humana. Esse Homem não é, em hipótese alguma, um modelo que diga da primazia da política sobre as demais dimensões da vida humana (religiosa, espiritual, artística, etc). O Homem como ser político é o homem a serviço de sua comunidade, o que tem "íntima conexão com a vida espiritual criadora". Não se trata aqui do simplório conceito do homem que centra sua vida nas funções da cidade ou seus pensamentos nas discussões políticas, mas de uma ordenação da vida estreitamente vinculada à religião. A inspiração religiosa, porém, não os converte em profetas ou portadores da Palavra, mas em homens cuja preocupação se centra no conhecimento e formação pessoal. O Homem como ser político é em si mesmo uma trindade: o poeta, o Homem de Estado e o sábio. Temos aqui um modelo humano que exibe uma natureza poética (invariavelmente, de inspiração religiosa), política (voltada para os assuntos da cidade) e do sábio (o sábio-filósofo cuja preocupação é a formação humana segundo este modelo de virtude). O tema dessa formação humana é a areté, traduzida comumente como "virtude", mas que diz respeito não só à acepção moral da palavra, mas a um alto ideal cavaleiresco unido a uma conduta cortês e distinta do heroísmo guerreiro. A areté (que nas acepções mais antigas designava tanto a excelência humana quanto a superioridade e força dos deuses ou a coragem e a rapidez dos cavalos) é gradualmente transformada em uma excelência interior, de valor objetivo (não subjetivo, como tendemos a pensar em um primeiro momento), expresso no sentido ou sentimento do dever, de origem aristocrática. É a nobreza que se preocupa com o dever humano em face de um ideal, com o refinamento nos modos de agir e pensar dos homens e a modelagem de sua educação, formação e cultura. Ser sempre o melhor e erguer-se sobre as coisas ordinárias: eis a consciência pedagógica da nobreza. Se, em um momento anterior, isso nos fala de conquistas e honras e ambições, gradualmente, em um momento posterior, estas preocupações se voltam para o alcance das mais altas virtudes humanas, conforme o modelo ideal de Homem, um modelo que não surge senão do divino. "O domínio da palavra significa a soberania do espírito." Essa é a feição espiritual da antiga cultura aristocrática. Ligada à areté está a honra. Os homens aspiram a ser honrados por pessoas sensatas devido ao seu próprio e real valor. E essa honra, que traz no âmago o "honrar a divindade", só é alcançada no comportamento do homem piedoso. Este, à medida que busca a areté, é reconhecido pela grandeza da sua alma, como a mais elevada expressão da personalidade espiritual e ética: uma alma magnânima. Aristóteles fala que o homem que "faz a sua beleza", o homem que aspira à "Beleza" e tenta fazê-la sua, conquista o prêmio da mais alta areté. O eu do homem não é o sujeito físico, mas o Homem ideal que o nobre aspira a realizar em si próprio. Só o mais alto amor desse eu, em que está implícita a mais elevada areté, pode ser fonte de "beleza" e autoestima. Como o Homem expressa a sua areté? Nas ações do mais elevado heroísmo moral, dentre elas: a defesa dos amigos, o sacrifício pela pátria, a capacidade de abandonar os bens e honrarias (ou não ser pautado moralmente por eles), o esforço de poetas e legisladores para deixarem à posteridade criações imortais do seu espírito, dentre outros. Essas criações imortais de valor inestimável, fruto da preocupação de formar o homem segundo o Homem, não são senão guiadas pela busca espiritual da imortalidade. O Homem político, modelo colocado no centro da expressão do espírito grego, subordina o físico ao espiritual, a política e qualquer outra esfera da existência humana à beleza mais elevada, à virtude mais elevada, de origem divina. Dizer que a política é a dimensão mais importante da existência humana, porque ela aparentemente "está em tudo" não é verdadeiro, pois essa visão refere-se apenas ao irrisório visível e negligencia o impulso espiritual que modela, organiza e confere sentido à vida humana. Fonte: Paideia. Werner Jaeger.

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