Conhecimento e Reverência


Tive um professor de física no colégio que jamais precisou pedir silêncio à turma, nunca teve qualquer estresse com aluno, embora fosse calmo, paciente e gentil. A mera presença inspirava um certo temor reverente.


Isso não era à toa. O rapaz de + ou - 26/28 anos era um "monstro sagrado" no que fazia. Estacionava o carro, vinha numa linha reta até a sala de aula, sem nada nas mãos. Nunca andou com planejamento ou folha de chamada, livro, nem um mísero papelzinho ou caneta.


Tinha uma didática incrível. Passava a matéria, explicava de forma rápida e sucinta, elaborava questões e exemplos na hora, dos mais simples aos mais complexos e deixava questões para resolver em casa. Na aula seguinte, dizia algo como: "na primeira questão, vocês todos chegaram ao resultado × ou y, certo? Pois vocês não prestaram atenção em um detalhe que expliquei... Agora, munidos dessa informação, tragam resolvidas de casa na próxima aula".


Isso durava uns 5 minutos ou menos. E lá vinha nova matéria! E os nossos pobres cerebelos automaticamente entravam em 220 V.


As provas não eram diferentes. Pedia para tirarmos 3 folhas do caderno e elaborava questões na hora, algumas bem cabeludas. Os alunos mais malandros bem que tentavam ficar sabendo detalhes da prova aplicada em outra turma. Não adiantava nada. Nunca repetiu nenhuma questão, nem mesmo usou o truque da troca de variáveis. Todo o enunciado era diferente e exigia uma boa interpretação. Alguns se saíam bem; outros, nem tanto; outros mal, mas na sua matéria, todos tinham iniciativa de estudar.


As dificuldades dos alunos tinham menos a ver com entendimento geral da matéria do que com interpretação da questão, sustentação da atenção durante a prova e articulação das ideias.


Ele sabia de antemão os erros, quais seriam os erros de cada um. Era um "monstro".


A correção das provas era em sala mesmo. Passava a matéria, dava exercícios e enquanto resolvíamos, o professor corrigia 45 provas em 15/20 minutos. E ainda resolvia no quadro os exercícios passados em aula. Entregava as provas ali mesmo, na hora, sem sequer anotar as nossas notas na folha de chamada. Não havia folha de chamada em mãos, lembram? E não cometia quaisquer equívocos nos boletins. Lá estavam as notas e as poucas faltas de alguns, muito bem assinaladas.


Alguns de nós tinham admiração; outros, temor; todos, respeito. Nenhum cochicho em aula. Nada. A mera visão daquele "baixinho magricela", que era um gigante em valor, fazia-nos arregalar os olhos.


Lembro até dos comentários sobre o tal sorriso de "bom dia": "é simpático"; "Que simpático? Aquilo é maldade, ele se diverte às nossas custas"; "Ele não está nem aí para nós"; "Está sim, ele não esquece nada".


Era visível, pelos comentários dos demais professores uma certa dose de inveja da maneira como tinha o pleno controle e domínio das turmas, sem se incomodar e de como despertava a iniciativa dos alunos. Parecia mágica.

Ninguém fez mais por nós naqueles dois anos (1o. e 2o. do ensino médio) do que ele. Para aquelas crias de 13-15 anos, ele era "Ele". Não nos referíamos a "Ele" nem pelo nome, nem por "professor de física" . Ele era "O Professor", quase uma Entidade.


O conhecimento inspira respeito, temor e reverência.

#conhecimento #professor #respeito #reverência #competência #crônica #DeiseZandonáFlores

2 visualizações
ATENA

ATENA

Adquira já o seu livro de poesias!

APOLO

APOLO

Adquira já o seu livro de poesias!

HADES

HADES

Adquira já o seu livro de poesias!

AFRODISIA

AFRODISIA

Adquira já o seu livro de poesias!

Patrocine a poetisa. Doe um cafezinho. Grata!

Siga-me nas redes sociais.

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram