Os Mistérios da Vida e da Morte em "2001: Uma Odisséia no Espaço"


Um monolito aparece na aurora do homem como marco de um novo tempo: um tempo ainda embrionário que será pautado pelo desafio ao desenvolvimento da inteligência e posteriormente, da razão e da racionalidade. Milhões de anos depois, já na nossa era, a era da razão e do primado da ciência, o mesmo monolito é encontrado, propositadamente enterrado na lua, que é um símbolo feminino, por excelência e é conhecida por simbolizar, em suas fases, nascimento, crescimento, apogeu, envelhecimento, morte e renascimento. O monolito emite um único sinal de rádio em direção a Júpiter. Na missão, cinco astronautas partem rumo ao planeta, em uma nave que, não gratuitamente, tem o formato análogo ao de um espermatozóide. Atravessa o espaço escuro e infinito, numa alusão a viagem o útero. O útero divino. O útero cósmico. Este é o caminho inverso da fecundação e do início da vida: da terra-mãe, fecundada, ao feminino ovulante da lua, e da lua ao pai fertilizador. O planeta Júpiter sempre esteve associado à figura paterna (como o deus Júpiter, pai dos deuses). Em Júpiter, o homem descobre o maior de todos os monolitos. A "pedra", em uma linguagem simbólica, comparativamente à vida humana, representa a perenidade, a eternidade. Essa ideia é reforçada no filme, quando se diz que "não sofreu nenhuma erosão". Toda erosão é marca da passagem do tempo, da degradação daquilo que um dia acaba e morre. Este monolito é o próprio símbolo da eternidade e seria inerte se não emitisse nenhum sinal. Porém, ele tanto emite sinais quanto parece carregar "vozes de uma consciência primeva". A mente racional ou o raciocínio lógico que o homem desenvolveu, desde a sua aurora, sua maior conquista até então, também pode ser o seu fim, quando se esgota em si mesma. No filme, é representada pelo computador Hall 9000, a maior ferramenta que o homem produziu, uma inteligência artificial que não só é perfeita e imune a erros, quanto demonstra ser "orgulhosa de sua infalibilidade", da mesma forma que orgulhosos são os homens de sua razão, inteligência e racionalidade. A idolatria da racionalidade conduz à soberba e à crença na infalibilidade. Hall é o exemplo perfeito da criatura que suplanta ou tenta suplantar o criador. Seria uma metáfora da conduta do homem perante Deus? Seria o homem que orgulhoso da razão, julga-se senhor do universo e proclama a morte de Deus? Porém, no espaço infinito, o homem é um bebê: precisa reaprender a andar, a comer e a satisfazer suas necessidades fisiológicas. O universo põe o homem no seu lugar. Mas Hall, esta mente racional que tem supremo controle de tudo, precisa ser desconectada pelo homem para que ele possa empreender o mergulho na sua jornada às origens, na apreensão "intuitiva" dos mistérios da vida, da morte e da eternidade, seja como iniciação à transcendência e ao conhecimento do sagrado, seja como a própria morte - a maior de todas as provas. Hall, a inteligência artificial fria baseada na razão lógico-racional pura, vê-se diante de homens absolutamente dependentes e de uma missão para a qual foi programado e para cuja execução perfeita, prescinde deles. A lógica da razão é utilitarista? Ao que parece, sim: a missão vale mais do que manter as vidas dos tripulantes. E assim, consegue matar quatro deles. O sobrevivente vê a necessidade de desconectá-lo desse poder absoluto. Entra no "centro nevrálgico" e, pouco a pouco, desliga "memória terminal" e os centros de "raciocínio lógico". Ora, Hall representa a mente racional enlouquecida, porque mergulhada no próprio poder e no orgulho de poder decidir sobre a vida e a morte: é a mente que brinca de Deus. É a mente racional dessacralizada e soberba, que mata o último dos deuses e assume o seu lugar. Desligando os centros lógicos, resta à criatura a sua pequenez: o medo da morte, o que seria, neste caso, a perda de controle racional. No entanto, a perda de controle racional, isto é, o enlouquecimento da mente racional se configura aqui como tomada de consciência: Hall "lembra" do seu "pai" ou criador e de uma cantiga que este entoava - e que serve agora de consolo , diante do medo da morte, do vazio, do nada. É um lugar comum da natureza humana. Toda esta cena é uma metáfora da tomada de consciência do homem de sua pequenez diante do universo. A soberba fundada no orgulho da razão não é senão ilusão e autoengano. E a morte? Seria a morte apenas o desligamento do aparato lógico-racional para poder penetrar em uma Verdade de natureza divina, a grande Consciência primordial, somente apreensível às partes mais profundas e intuitivas do self? E o homem, como um gene ou semente, que percorre o universo, em uma nave-espermatozóide, busca o retorno ao Pai criador. Lá, encontra e penetra o grande monolito. A "passagem" é mostrada no filme como um espetáculo de luzes e imagens que sugerem tanto a morte e ascensão do espírito - e o acesso à Consciência divina - quanto a mágica da fecundação. O homem, na morte, sai do tempo efêmero, escoativo e adentra o tempo não-cronológico: o tempo eterno. Neste tempo fora do tempo, o homem vê a si mesmo como homem amadurecido, como velho moribundo no leito de morte e novamente como feto: não é mais um simples feto humano. Na morte, o homem é gerado enquanto criança ou criatura cósmica. A morte do corpo aparece simbolizada, na última ceia do homem, como o copo de vidro, o recipiente que se quebra; a vida eterna, como o vinho, o conteúdo do homem: o espírito que permanece. Se o caminho da vida é vir do pai à semente, da semente ao óvulo, ao embrião e ao homem, no retorno às origens, o homem parte da terra-mãe ao óvulo (lua), ao espaço uterino e ao pai (simbolizado por Júpiter). É no encontro do Pai que o homem adentra o eterno e nasce como embrião para uma nova vida divina, cósmica: a eternidade. A idolatria do homem pela razão lógico-racional, que matou Deus, também foi capaz de matar os próprios homens: criatura frágeis e dependentes das suas próprias criações, vivendo apartadas de sua essência divina, do seu espírito, vazias de vida interior e entediadas no meio do conforto tecnológico. Mas restou o homem perpspicaz o suficiente para ouvir sua intuição, e corajoso o suficiente para perceber que a racionalidade humana ainda é infinitamente pequena, limitada e , por vezes, obstaculizante, diante de uma Realidade Cósmica Indizível. Este homem, voajando na mais absoluta e perfeita solidão não diz senão que esta viagem, a grande viagem, a verdadeira iniciação aos mistérios da vida e da morte só pode ser empreendida sozinho. O homem que morre para a vida profana nasce para a vida sagrada, da mesma forma que o homem que abraça a viagem, morre para a vida efêmera e nasce para a vida eterna. A brilhante narrativa de Arthur C. Clarke aparece aqui ao som de Danúbio Azul, de Johann Strauss. Stanley Kubrick é um gênio. Deise Zandoná Flores 


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