Religião, Sede de Realidade e Amor à Verdade


O homem religioso deseja viver a Verdade; não uma verdade profana, efêmera, caótica e subjetiva, mas a Verdade Sagrada que corresponde à Realidade Suprema.

Diferentemente do não-religioso, "o homem religioso só consegue viver em uma atmosfera impregnada do sagrado", porque "o sagrado é o real por excelência", isto é, o sagrado é poder, eficiência, fonte de vida e fecundidade.

Viver o Sagrado, viver no espaço sagrado é situar-se na realidade objetiva, não se deixando paralisar pela "relatividade sem fim das experiências puramente subjetivas". O homem religioso busca no Sagrado o ponto fixo que permite situar-se no mundo.

Construir o espaço sagrado (Templus), através de técnicas de consagração, não consiste em um esforço e um trabalho puramente humanos, mas na reprodução da obra dos Deuses: a Criação do Cosmos (o nosso mundo organizado) sobre o Caos (o "outro mundo" estranho).

Assim, o momento religioso de consagração atualiza e ressantifica o espaço, revelando - uma revelação que é de Ordem Divina - o "momento cosmogônico": a Realidade Absoluta do divino, que cria e funda o mundo, a ordem cósmica, tornando possível a orientação do homem neste Cosmos.

Portanto, a Realidade objetiva é dessa natureza: divina, criadora e primordial. E a Verdade corresponde à Realidade, não apenas no momento da Criação, mas em todos os momentos em que os ritos de consagração atualizam e ressantificam o espaço e, por conseguinte, o mundo.

"A cosmogonia é a suprema manifestação divina." A Criação "é força, superabundância e criatividade", que vêm preencher a sede do homem religioso de realidade. O homem religioso é sedento de real e emprega seus esforços para instalar-se na fonte de realidade primordial, quando o Cosmos nasce, isto é, quando nascem com ele o Templus (o espaço sagrado) e o Tempus (o tempo, a temporalidade).

O amor à Verdade é esta sede de realidade objetiva, suprema e primordial no tempo-espaço (con)sagrado em que o homem religioso (con)vive com o(s) Deus(es).

O homem religioso consagra(-se) ao divino por ações rituais que ressantificam o espaço-temporal, cujos modelos são provenientes da própria Criação. Esta consagração é a antítese das múltiplas experiências subjetivas que originam "inúmeras verdades", muitas vezes, conflitantes e insolúveis.

Na Era da Pós-verdade, pautada por um subjetivismo sem fim e um sentimentalismo que não é senão um egocentrismo de proporções cósmicas - isto é, que coloca o indivíduo no centro do próprio cosmos -, o indivíduo põe-se a si mesmo como força superior à Verdade e desloca a sua sede de Realidade para uma sede de si mesmo nunca saciada, uma vez que é impossível saciar-se na própria sede.

A Criação é a origem da Realidade e da sua correspondente Verdade. E Dela resulta a verdade humana. O amor à verdade é da mesma ordem da sede de Realidade.

O momento em que o homem (co)move-se em direção à verdade é a expressão dessa disposição íntima ao Sagrado, pois que o amor à verdade é sempre um versão do Amor à Verdade, à Realidade primordial, ao Divino: é o próprio ato de Amar a Deus sobre todas as coisas.

Texto de Areia Nymphia

Citações de Mircea Eliade - O Sagrado e O Profano: A Essência das Religiões.

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