Mentiras Semelhantes aos Fatos, Verdades e o Sagrado


"Dizer mentiras símeis aos fatos é furtá-los à luz da Presença, encobri-los. As mentiras são símeis aos fatos enquanto só os tornam manifestos como manifestação do que os encobre. As mentiras são símeis aos fatos enquanto se dissimula a unidade que, por estar na raiz da similitude, une simultaneamente em um só lugar o símil e o ser mesmo. Símil (latim similis) e o grego homoia têm a mesma raiz etimológica, que indica como idéia fundamental da similitude a unidade. Por meio desta raiz podemos apreender e pensar a similitude que une as mentiras e os fatos, unidade-similitude em que a mentira e o ser-mesmo se dão como símeis. Ao dar-se como símil, o ser-mesmo se dissimula pela simulação desta similitude que, na força do assemelhar e do simular, apresenta-o (o ser mesmo) como simulacro (a mentira símil). O símil mesmo é já Outro ao dar-se como símil, pois aí o ser-mesmo se oculta sob a similitude que o une ao Outro. Assim, na unidade desta similitude, estão unidos as mentiras e os fatos, pois os fatos, enquanto símeis, ocultam-se eles mesmos sob a similitude com outra coisa, - subtraindo-se enquanto ipseidade."

Jaa Torrano - Musas e Ser (Teogonia, de Hesiodo)

Essa característica de simular a realidade para encobri-la; e de encobrir a si mesmo, apresentando-se como um simulacro, colocando no lugar do eu verdadeiro apenas uma máscara é, na Teogonia, um atributo das Deusas (ou Musas). São elas que têm o duplo poder: podem revelar verdades como podem encobrir as verdades com mentiras que muito se assemelham aos fatos.

Essas mentiras se assemelham tanto aos fatos, que nos fazem tomá-las de tal forma por verdade, que jamais seríamos capazes de reconhecer a verdade quando a víssemos. Pois essa outra coisa - essa mentira - teria tomado o lugar da verdade de tal forma inquestionável, que a verdade estaria assim perdida para sempre para nós, somente sendo conhecida pelos Deuses e pelas Musas.

Estes jogos estão na raiz tanto do nosso psiquismo quanto do teatro (e da política?). No teatro, o ator se esconde, enquanto se mostra como um Outro. Nas origens do teatro, os atores usavam máscaras. O teatro, em sua origem, está indissociavelmente ligado ao sagrado, ao poder das Musas e dos Deuses. No entanto, as divindades são elas mesmas mestres nestes jogos. Não importa quão bem representemos, elas nos vêem como somos, por detrás dos véus e máscaras: as divindades nos vêem nus.

Areia Nymphia

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