Alfabeto, Memória, Esquecimento e Verdade


Sócrates acusa, no Fedro, o caráter deletério que a invenção do alfabeto teve para a Memória. Na época arcaica da história grega, o aedo (poeta-cantor) representava o máximo poder da tecnologia de comunicação. Toda a visão de mundo e consciência da própria história era conservada e transmitida pelo canto do poeta. Para eles, o canto do aedo tem o poder de ultrapassar e superar limites e distâncias temporais e espaciais.

O canto (chamado de Musas na poesia mítica arcaica) é filho da Memória (inclusive, em sentido psicológico) e do mais alto exercício do Poder (em sentido político e jurídico).

O poeta se colocava acima do próprio rei, uma vez que o seu canto poético e mítico continha as fórmulas pré-jurídicas não-escritas, que permitiam administrar a justiça e arbitrar questões entre querelantes.

Essa importância se devia ao fato de o poeta ser o cultor da Memória, usada tanto em sentido religioso quanto prático da vida.

Esse era o imenso poder da palavra que foi solapado pela adoção do alfabeto. Havia uma relação sagrada, quase mágica, entre o nome e a pessoa, entre a palavra e a coisa nomeada.

Nesta visão de mundo, a palavra fala a verdade e, sobretudo, a Verdade. Fala do Sagrado. E a partir do momento em que nomeia alguma coisa, esta coisa passa a fazer parte do âmbito do sagrado.

Milênios depois, Carl G. Jung traz à tona a relação curiosa - e óbvia - entre o nome de alguém e características psíquicas dessa pessoa. Já distante do pensamento mágico-religioso da época arcaica da história grega, dá o nome a este fenômeno de arquétipos, isto é, modelos psicológicos universais e atemporais e de origem mítica que têm profunda influência na vida das pessoas, tanto individual quanto coletivamente.

Jung também dizia que até que o indivíduo cumpra a máxima do "conhece-te a ti mesmo", muito daquilo que ele pensa ser sua individualidade e características individuais é apenas a manifestação à risca de um destes modelos psicológicos universais.

Deise Zandoná Flores

Fontes: Jaa Torrano - O mundo como Função das Musas (introdução à Teogonia, de Hesíodo) Jung - O Eu e o Inconsciente Jung - Sincronicidade

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