Mundo Faminto, Banquete Abundante


No escuro, ela falou comigo, entre pistas, sussurros e túmulos, congestionando os meus sentidos, enlouquecendo os meus sentidos. Um acúmulo de ruído e a mensagem eu não escuto. Estou doente e não me curo. Implorei pelo silêncio que eu não tinha. O vazio pode ser ensurdecedor... Eu gritei alto a dor que eu já nem sentia. Pedido atendido e eu passei a sentir tudo - um eufemismo, a palavra dor; um reducionismo falar em pavor -: ao toque da roupa, a minha pele ardia; o frio castigava, o calor corroía. O Vazio ruidoso, pai dos muros, consorte do Abismo... O abismo dentro do abismo... Qual ventre era agora o que me engolia? Sem arrependimentos ou absolvições, o que pode ser pior do que o pecado não nomeado? Ela ria de mim, gargalhava alto, violenta e exuberante como um raio. Eu fui o ofertório, a oferenda e o ofensor. Eu fui o sacrifício imolado, o choro, a turba e o furor. Vazio ou dilúvio? Não é bem uma escolha: ser afogada na areia ou engolida pela onda. Este é o preço pelo seu apreço, pelo seu abraço: fugir feito louco de si, caindo fundo no espelho, querer estar fora, estando cada vez mais dentro. Ela confortou meu corpo doído, quase morto, fez brotar um tornado no espírito, que eu cria oco. Arremessada para o alto, esmagada sob o chão, até sentir o peso terno e o calor-frio, o calafrio da sua mão. Ela exige que eu seja mais do que o cordeiro imolado, que eu sofra mais do que o ingênuo exaltado, que eu seja o ator, a oferenda e o altar. E, em um canto qualquer em segredo, nos olhos dos mortos, no suor dos guerreiros, que eu prove do espírito e a reconheça nos ardis, na seiva, nos sacrifícios da natureza. Este é um mundo faminto, um banquete abundante, em que os tolos caçam poeiras ao vento, ignorando que toda a areia, de que é feito o espelho, é sua irmã gêmea. Se ora estou no banquete, outrora sou alimento. E quem se alimenta de areia, senão Ela? Nascido em vasto oceano, gerador e matriz de cardumes e nadas, o náufrago de si, em nada hesitante, mesmo solitário e perdido, se devoto, ainda nada exultante. Ela é a Inocência perdida entre flores sem vida, a perfurar-me o peito. Ela é o sonho desfeito de uma vida iludida, ferida e sacrificada. Ela é o frio congelante que, por um momento, parou o meu sangue e hoje me faz arder. Deise Zandoná Flores

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