Arremedo


De que vale mais uma lei, como uma traquitana que à nada te conduza, perdida quinquilharia, em tua bolsa repleta de inúmeras outras não cumpridas? Acaso te basta a redundância a tornar-te especial vítima dentre tantas, a conferir-te um código novo, quem sabe em tira de papel rosácea amarrada em teu pé, pós-necrópsia? Se te subtraírem a vida, terás na morte o consolo de uma categoria própria. Não serás como outros apenas mais um morto dentre crianças e homens - a quem estes últimos importam? Serás cadáver distinto! Nem lei dileta ficará em teu bolso, pois que foi poupado, da tu vida, o outono: saga abreviada, de uma epopéia a uma linha. Terás com sorte outros que te vistam e quem sabe, em hora derradeira, da lei amada, eles se esqueçam. Nem no teu bolso, sombra dela restará! Por ora, tens a mim, neste posto ambíguo, a te dizer: "Vês? És um triste cadáver, mas um cadáver distinto. E não é que o crime foi grave?" Teu algoz, outrora bandido, ora é vítima de crime ainda mais distinto: o difuso e inimputável vento do machismo. Grita, pois que ainda vives, teu feminicídio, e talvez um tapinha nas costas, por brinde, seja-te concedido. Se acaso fores - triste fortuna! - estuprada e morta, o solitário vento será, por certo, o teu réu bandido. Briga tu, ora dormente inteligência, para que, neste vil cenário por mim construído,

só mais uma dentre tantas vítimas sejas, e que sobre algozes, nomeados bandidos, sejam-lhes imputadas duras penas. Ruptura deste arremedo de justiça, que só faz produzir leis-penduricalhos postas em penduricalhos de outras leis, como uma colcha puída de retalhos que para escudo do frio já não serve: torna apenas o monstro mais leve e a ti não se presta nem para remendo. De teu último suspiro, elas fazem um aplauso, um anúncio, um adendo a acrescentar currículo, a trazer votos e benefícios a um ignóbil qualquer que entre ti e o bandido, jogar-te-á em cova de indigente - somente um número, uma estatística -, e tratá-lo-á com o mérito que a ti cabe. Com garbo, pompa e formosura, ante a realidade nua e crua, tua distinta lei será só enfeite: um broche, um brinco, um pó, um rímel, quando tu fores pó sem ser maquiagem. Não te esquece, no entanto, torpe criatura: Distinta ou não, não restará aos teus amores mais que a agonia rotunda, pois que nenhum cadáver, mesmo maquiado, é lindo. Deise Zandoná Flores

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