Tertium Comparationis


Eu não quero seguir por esta estrada estreita e simultânea. Um sopro me chama... Meus pés insistem em sair da cama. Algo lá fora é mais frio do que o frio mais insípido e insuportável. Duas vozes, talvez mais, disputam os meus ouvidos, como se eu não as ouvisse em meus arrepios, como se eu não fosse o tertium comparationis desta equação, a procura de um quarto termo que talvez tenha encontrado. Se eu fecho os olhos, a pele está desperta. Se eu ignoro as imagens, o peito aperta, o sufoco toma e torna seu lugar inalienável. Deixe-me fora deste plano descartável. Minhas folhas se enchem de palavras não escritas que, por outros, há muito já foram ditas e, por meus instintos, há muito foram ouvidas. O sopro que pretensiosamente batizo de poesia é só uma reedição de gritos mudos, diálogos surdos nunca travados, ao menos não nesta ficção cronológica da vida. Eu peço-lhe que fale à luz do dia, mas ele vive de sussurros em meus sonhos. O vento murmura e sussurra apenas. O meu coração vive suas penas aos urros. Na paisagem fictícia de um lugar distante, sobre um chão de gelo brilhante, um urso branco calmamente me fita. Não identifico o que queira de mim: se meus inícios ou meu fim. Se é para ser presa... Assim seja! Se o futuro conhecesse, não me furtaria de vivê-lo, tal destino previamente escrito... Isso se o Prévio, esse irônico epíteto do eterno, de fato, existisse. As encruzilhadas passam por meus pés como filmes em uma tela. E eu não passo de um detalhe eterno do universo, uma tinta sanguínea que transcreve as vozes dos meus arrepios. Minha carne está presa a mitologemas. Quantos mitos ainda reeditarei no decurso de uma vida? Tantos enredos conflitantes, tantos cursos... ... que, às vezes, penso em abandonar os poemas e dizer a quem quer que me procure, que me procure nas páginas da Teogonia, da Ilíada, da Odisséia, da Bíblia e de tantos outros escritos. E que me encontre uma vez que corro o risco de me perder de uma vez para sempre... Sempre: este outro epíteto engraçado. Acho que sou apenas o simulacro de um esquema antigo solto e descabido no presente, mirando o Caos, mirando a Noite, mirando Cronos, corcéis e corvos, peixes, asas e espadas, nuvens, lagos de espelhos, raízes, gatos e pombas êxtase divino, golpes e ondas e, por alguma razão estranha, lençóis, pijamas, incêndios, velas, vidros, cerâmica, sóis, luas, banhos e cama, jarros e baldes vermelhos. Não há nada que eu possa falar de mim, que já não tenha sido, há muito, muito melhor escrito. Deise Zandoná Flores Publicado: 30-07-2018.

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