O Cálice da Mão Esquerda


Não. Eu não provarei deste veneno. Corro o risco de não encontrar mais uma porta. Com a esquerda, afaga os meus cabelos. Com a direita, inocula-me alguma droga. Afastai vossas mãos que me consolam. Eu conheci a Majestade Decadência. Prestar-lhe honras seria a minha desonra. Tóxico é o seu beijo de clemência; letal, o espinho da sua indulgência. Eu sou imune à autocomiseração. É morno o beijo da despedida daquele que, em olhar piedoso, destina-te um até logo, quando no copo o veneno deixado transforma-te em um saco de ossos. Vítima eu fui, vós sois; eu, não. Nunca dei à predadora a minha ontologia, Arranquei de suas presas até minha contingência. Sem piedade, pois que odeio a apatia, neguei-lhe um verbo ser qualquer que me defina, e, mesmo do estar, deixei-a morrer faminta. É fácil trilhar o caminho do sim que leva ao fim. Pois digo que é mais honroso empunhar uma adaga do que apaixonar-me por mim a fitar meus pés, e então, irmanar-me ao chão. Vede: o meu sangue está em minhas mãos, de uma luta que faço questão de prolongar. Não trilho ou trago o caminho ou cálice da mão esquerda. Minhas honras presto aos guerreiros, não aos burocratas. Meu respeito aos agressivos; aos vermes, meu desprezo. Inermes eles ficam a esperar um afago, enquanto eu incremento a minha lista de pecados. O sarcasmo tomo por presente honesto, como honesto é o sorriso e o tributo que a ele presto. Eu grito. Nas bolhas dos meus pés, a história; nas linhas tecidas em meus olhos, a teia da memória e a preocupação. Taciturna, luto contra o sequestro pela dor ociosa que fere meu coração. Tão afiada é a língua quanto a adaga. À polidez enferrujada, eu prefiro o nada. Não espereis de mim entremeios, que eu vivi de extremos e entre eles encontrei certo equilíbrio, que não está em um ponto ao centro, mas no contínuo movimento da gangorra. A quem me oferece o cálice da autocomiseração, pois que morra! E que não se demore, visto que será mesmo morto pela mesma mão esquerda que o afaga. Em punho ou no coldre... No ontem e no hoje... Vinde! Eu proponho um brinde à adaga honesta! Deise Zandoná Flores

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