Sobre o Abismo


Quem já esteve à beira do abismo... Quem se jogou mas sobreviveu... Quem esteve prestes a se jogar...

É inevitável lembrar dele, às vezes. As lembranças não vão embora. Não adianta fingir que nada aconteceu. É pior.

E pior ainda fica se algum terapeuta retardado quiser "re-significar o seu passado", isto é, contar alguma história da carochinha para você "superar e deixar para lá".

Para quem ainda tem suas funções cognitivas preservadas, essa estratégia é uma barca furada e não ajuda em nada. Só piora as coisas.

Não é assim que a coisa funciona. As músicas, os filmes, a literatura, a poesia estão aí para provar o meu argumento.

Mudar a narrativa não muda o fato nem atenua as consequências. É preciso desenvolver estratégias de lidar com as visitas do Abismo.

Na minha experiência...

Negociação é a palavra chave. Negociar com o Abismo é a ação correta. Discernimento é uma boa ferramenta.

Quando lembramos do Abismo, involuntariamente, diga-se de passagem, momentaneamente, ele vem nos visitar. Ficará hospedado ou não? Esta é a pergunta.

Não é como uma lembrança qualquer que fica lá no passado e a gente lembra como se assistisse a um filme ou visse um álbum de fotografias. Não. Ele não permite.

Ele, o Abismo, chega, bate à porta. Exige uma visita. Tudo bem. Aceito.

Conversamos, tiramos algumas fotografias sob a forma de poemas e, então, eis que chega a hora de dar despedida.

Quanto mais se tenta fugir do Abismo, mais ele se torna agressivo: derruba portas, invade a casa... É tirânico. Não aceita ser ignorado.

Negociamos: sua visita por um pouco de atenção minha; sua saída por alguns registros em "fotografias".

Ele aceita. Então, deixo-o entrar...

Uma xícara de chá e um dedinho de prosa... É nessa hora que percebo que, enquanto houver essa xícara de chá e esse dedinho de prosa, ele não será assim tão ameaçador.

O Abismo é aquele professor exigente, que aplica testes nas horas que bem entende para saber se aprendemos a lição ou se continuaremos trapaceando ao estudar só na véspera de prova e esquecer da matéria no dia seguinte.

Esse mestre não quer saber de notas e provas. Quer saber se aprendemos, assim, na marra, se abrimos, na pá e na enxada, novas estradas nos mapas dos nossos neurônios e novos capítulos nos livros de nossas vidas.

Cada visita é um batismo de fogo. E a cada visita, ele se torna mais gentil, friso, desde que sejamos bons e atenciosos anfitriões.

Não posso me queixar das últimas visitas. Tiramos já uma porção de belas fotografias sob a forma de poesias.

É aterrorizante e, ao mesmo tempo, gratificante olhar nos olhos negros e vazios do Abismo e não ser dragada por ele.

Não, ele não é bom. É perigosamente neutro. E isso pode ser ainda mais assustador do que se soubéssemos com certeza ser ele de todo mau.

O Abismo é uma força da natureza. Não é possível fugir dele, tampouco, enfrentá-lo. Quem tem essa pretensão megalomaníaca invariavelmente perde. E feio.

Gostemos ou não, o Abismo é essencial para o grande Despertar da alma e do espírito. Não creio em quem nunca o conheceu.

Alguns o conheceram no deserto, outros no gelo...

Eu estaria mentindo se falasse em um Despertar como se fosse um episódio. O grande Despertar é uma série deles. Por isso, essas visitas, mais ou menos frequentes.

"O que eu posso aprender com ele?"

E, se não é possível nem recomendável evitá-lo...

"... que tipo de lembrança eu quero guardar desse encontro?"

Eu escolhi poesias. E você?

****

Deise Zandoná Flores

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