Às Favas, Eu


Como um globo terrestre de gelo, uma esfera de quartzo rosa trincado... Como a pérola presa na concha, a concha presa à ferida em jóia... Como o toque do sino ouvido e por ninguém escutado... Como a voz surda de um incenso a desenhar desígnios... Como a dança fogosa da chama de uma vela vermelha... Como a labareda em espiral, tal parafuso ou espada... ... perscruta-me o interior, perfura-me a crosta, encontra o magma. Às favas, eu... Qual é a inclinação do meu eixo? Seria eu tal planeta Vênus, a girar mais em torno do Sol do que sobre si mesmo? Sou um dia a durar mais do que um ano, ser confuso a orbitar quem eu amo, fugindo dos pólos gelados em mim, tão terrestres... E lá se vão as formigas a passear sobre as flores... E cá as abelhas a invadir minha casa, a distrair certas dores... E lá vou eu a preferir ser terra e moeda a ser apenas água salgada e mel de uma florada amarga. E o Sol me prende e ainda me faz arder... E a Terra, praça ornada de flores, ponto de encontro onde o gelado vermelho e poeirento me encontra, despido de escudos e lanças. Rubis, granadas, jaspes e hematitas, quartzo rosa, âmbar e água-marinha, enlace de gelo e fogo, de cobre e ouro, no sítio, à linha do equador, a desejar ardentemente joalheiro ou ourives, sob a prata translúcida a surgir no horizonte. Seja sob a teia fina de diamante a captura ou no sangue da vida que escorre indolor; Seja no sabor ferroso da sorte, o doído gosto da morte; Seja no centro de que universo for... ... tal pequeno ponto, em um grande encontro que para mim é todo um universo, sem início nem fim. Destinada a arder para não condensar o que de mim tem o dever de fluir para não sublimar... Saber o que sei sem desaguar no porvir... Desejando um porto sereno de pousio, distante da órbita viciada do vazio, rumo segura ao abraço do gigante solar. Equilibra-me Marte. Encontra-me na ferida, na praça, durante a madrugada, sob a luz fria da selenita grávida, quando os medos já não produzem sombra. Íntimos e seguros, à salvo entre flores, que de olhos fechados preservam nossos segredos... Lagos secos não afogam Narcisos, pois que narcisos margeiam os pés indecisos. Sou esfera de cobre a rondar o astro de ouro que de tão imenso contém-me em tudo, nunca sendo de todo só meu. Eu, que nesta jornada certeira ao seu núcleo, não enceno mais do que a carta do Bobo. Às favas, eu... Deise Zandoná Flores Ilustração: Arilton Flores

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