Vontades Carolinas


Não é tarde para descobrir-se entardecido, estar do sol da primavera desprovido, ter o telhado das lembranças embranquecido. Não é tarde para descobrir tão pequeno o que, quando pequeno, era gigante e ver-se agora gigante em remendos fragilmente unidos. Não é tarde para ver empate no que antes era perda ou vitória, dar-se conta de que foi vitorioso na derrota e perdeu-se de si mesmo na vitória: inconsciente troca. Não é tarde para se aceitar perdido e ter nos grãos de areia a si reconhecido, como um navegante, de tanta paz, enlouquecido. Não é tarde para ouvir, no próprio silêncio, os ensurdecedores gritos de uma criança, de rosto escondido atrás de suas tranças, reivindicando abraços, e ter vontade de brincar no balanço. Não é tarde para se perceber que as vontades são sempre meninas, deveras mimadas, um tanto selvagens, embora pudicas, que nos acordam aos alardes durante as madrugadas. Não é tarde para se ver curvado, nas memórias dos antigos parques, soltando as meninas, alvas carolinas, a tropeçar nos sonhos, para então correr, ainda que pouco o fôlego, antes do último afago.

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Ilustração: Arilton Flores

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