Nevasca em Janeiro


Eu lembro de um tempo de céu cinzento e pássaros recolhidos... ... um tempo dormente de um reluzente e lustroso frio, cujo brilho crescia aos olhos, conforme o corpo tremia e doía até os ossos. ... um tempo em que desejava o arrepio, pois nenhum relevo parecia tão íngreme, ao ser escalado, quanto o corpo gelado de um janeiro qualquer e impreciso. Eu lembro de um tempo anterior... ... em que as cordas do barco não eram restos amalgamados à areia; ... em que as ninfas e as sereias brincavam nos rios e mares de minhas artérias e veias, antes da era do gelo e da dor. Camadas de histórias em sequóias gigantes falam de arbustos menores - esquecidos - e suas grandes pretensões. E eu, nem isso... Fui o vislumbre de uma trepadeira, menos Jasmin ou Hera do que Flor de Cera, que não se lembra de ter escalado muros ou paredes, mas ainda conserva uma dor fantasma do apego às bengalas e muletas. Quando me doem até os ossos, escrevo meus destroços em papéis amarelados, manchados de um café antigo derramado, que lhes conferiu perfume e me despertou ciúmes. Quando me doem até os ossos, ainda no preâmbulo do dia, lembro das muletas, pego uma cadeira, aguardo o sol na grama que, mesmo no ápice do inverno, aquece-me mais do que naquele tempo, quando nevou em Janeiro no meu coração. Não nevava... Não! Recuso esse tempo contínuo do verbo pretérito e entrono a recusa, para que não lhe assanhe as entranhas, nem lhe nutra esperanças e, então, um dia a odienda retorne. Mil vezes, não! Foram muitos janeiros - das folhas do calendário já não lembro... ... janeiros contínuos, que insisto em comprimi-los em um ponto: nevou! Eu então os confino na masmorra do passado. Da dor do verbo, que fique apenas o fantasma dissipado pelo sol, todas as vezes em que o preâmbulo do meu dia conhecer a sua introdução. Foi um conjunto de janeiros - bem me lembro-, hoje constritos à força em um ponto único: um grande e inflado Janeiro cinzento - verão para os outros; para mim, inverno -, em que nevou no meu coração.

***** Deise Zandoná Flores Ilustração: Arilton Flores No facebook: Alta Sensibilidade - Deise Zandoná Flores

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