Náusea


NÁUSEA Tive outrora o fogo de uma biblioteca, logo extinto, de um mundo ambíguo, também extinto, ao qual eu dei às costas... ... um fogo do que eu me desfiz, doei para seguir avante. Tornado, frio e cinzas, morto à minha frente, a impedir passagem, tal qual muralha desfeita em escombros ou mausoléu de um outro eu, fina geada sobre os outros, a me lembrar da filha que nunca nasceu. Troquei muralha por bicicleta... ... para desviar das poças e sentir o vento, ... e pedalar na chuva, lado a lado com as sentinelas, que guardam o castelo do meus oceânicos sentimentos. ... Apenas uma bicicleta para dar aos pés um adjetivo leve, que os mesmos desconhecem e, assim, desenhar terrenos, onde novos livros far-se-ão janelas, mais do que aqueles antigos, de antigas querelas, esgotados em vazias promessas, por trazerem em si impressos o rosto hipócrita da traição. Em inanição, por vários anos, não li parágrafos sem sentir náuseas... ... angústias, dores, vertigens, atenuadas tão somente em lágrimas derramadas pela perda das portas, pretensos oásis, que camuflavam - ilusão! - areias movediças. De Santa, não cheguei nem à noviça! Desfiz-me, pouco a pouco, em poço seco e fundo, em toco oco de madeira apodrecido, fardo moribundo corroído por lembranças. Busquei-me a mim mesma em outros livros, que me conduziram ainda mais profundo, em trilho confuso ao fim do meu mundo... ... sem fim ou início - ourobouros -, tão somente um ciclo... ... vicioso ou virtuoso? Eu ainda não sei. Andei, andei e cheguei ao mesmo ponto: à dívida com Atena. Já quis, em inúmeros sonhos, nunca ter partido. Acordei tristeza e alívio por ter me perdido, por ter me banido e não mais me encontrado... ... como um exilado, de coração tentado e ânimo ferido. Limpei excessos, abri espaços a preparar a soltura do enclausurado, cuja voz, outrora forte, foi engolida pelo silêncio, e, neste momento, ensaiava vazios, gemidos, muxoxos e alguns balbucios. Encontrei-me, colheita de flores, na inocência cíclica de uma tal Perséfone, a ver alternadamente sol e escuro, a transitar diurna e noturnamente, a ver o mundo ou a mim tão somente. Da areia, fui ao ventre da baleia, a esperar por náusea que me expulsasse, antes que, na próxima noite escura da pedregosa alma, ela me aspirasse, em novo gole, faminta e monstruosa. Carrego comigo hoje tocha e marreta, para não aguardar passiva e dormente a sua náusea. Luto comigo para manter faísca do que um dia, mais do que fogo, foi incêndio. E, mesmo no verão, por vezes, recorda-me só o frio. Não solto a pena com que traduzo as penas, nem me culpo por meus melancólicos escritos. É por eles que me desnudo, e dos humores turvos, eu me dispo, para vestir-me de sol no escuro e produzir clareiras... Não tenho hoje mais do que uns poucos livros. Sonho futuras muralhas que me possam, desta feita, serem fortes, de onde me guardem, da invasão de um eu faminto, soldados armados e obsessivas sentinelas. Da minha biblioteca, às vezes, saudades eu sinto. Não obstante, na luz tremeluzente de meus melancólicos escritos, eu me conforto, por ter me feito não mais do que poeira ao vento, por não ter náusea, nem ser passiva espera pela náusea de minha baleia.

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Ilustração: Arilton Flores

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