Danças


As chamas dançam ao som de medos e inseguranças: músicas inaudíveis ecoando em cantos inacessíveis da mente. Quebrando o silêncio, o crepitar das labaredas emanando o perfume das ervas, o farfalhar das folhas caídas das árvores roçando a terra, e as ondas quebrando ao longe - e aqui perto -, no horizonte que os passos alcançam sem precisar de descanso imediato. Em um banco feito de troncos, um ponto de encontro com a dádiva... ... um encontro marcado, um pacto selado, em um banco de areia trazido à vista durante a maré seca. Uma conversa com o vazio que, às vezes, invade, enrijece a testa, trava as sobrancelhas, desenhando olhos congelados e inexpressivos. O cansaço é deixado ao mar em troca do revigor. Não é preciso olhar o céu para sentir as nuvens, basta ouvir o latejar das têmporas... Eu, que me pego absorta a olhar o trabalho frenético em um formigueiro, sinto uma vontade súbita de me perder nos braços do oceano. E, antes da maré-enchente, cheia de oceano em minha mente e calafrios de vento no corpo, começo a chover em minha concha, para deixar a areia seguir seu curso. Tudo em mim tem o seu livre percurso... Planto tesouros do mar na terra para cultivar ondas... ... resquícios de minhas brincadeiras de criança: enterrar tesouros, deixá-los esquecidos, até um dia lembrar de procurá-los. Na terra reconfigurada, sem saber onde os plantei, novas descobertas... E, depois do fogo e das ervas, há uma flor que dança logo à minha frente.

***** Deise Zandoná Flores

#ondas #poema #fogo #dança #dádiva #cansaço #oceano #concha #maré #medos #inseguranças

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