Escultura


Qual era a forma do meu coração?

Parecia massa amorfa tomando a forma de quem eu amava. Se era bom, era também minha ruína. Eu sentia que um dia me aniquilaria...

O que eu podia fazer, quando as dores dos meus amores tornavam-se minhas dores?

Minhas emoções enlouqueciam... Minha mente não descansava até encontrar alternativas que, muitas vezes, estavam contra mim.

Eu precisei encontrar o egoísmo para me proteger...

Eu pescava mil fios no ar... Eu tinha mil olhos para complicar... Eu ponderava mil dificuldades... Eu calculava mil variáveis... Eu pesava mil necessidades...

Eu estava em fogo cruzado. No acordo de paz entre os atiradores, eu sucumbiria...

Eu sentia... Era questão de tempo, tempo de luz ou tempo de vento, até ser dragada pelo rio turbulento dos meus sentimentos.

Comprar batalhas que não eram minhas... Resolver questões maiores e mais urgentes... Comigo? Negligente! Não ouvia os gemidos de alma emudecida. Como eu era resistente! Eu sobrevivia a muitos tiros.

Eu não esperava por aplausos... Eu ignorava os suspiros... Eu desdenhava dos agrados... Eu seguia o meu espírito.

Mas quem quebra barreiras nunca é aceito ou bem visto! E, quando se leva tiros por todos os lados, já é um pouco tarde para o escudo-egoísmo.

Cicatrizes arcaicas me fizeram forte. Sem norte, um espírito titânico, em corpo jovem, precisa ser guiado. Ao invés de guias, encontrei carcereiros... E eu combatia tudo o que cerceava o espírito.

Um espírito titânico não admite contenção! Prefere ir em direção à forca, do que se deixar prender em camisa de força!

De nada, eu me arrependo. Onde eu encontro muros, em prejuízo, eu arrebento! Eu faria mil vezes e muitas vezes mais... Eu faria mil vezes e todas de uma vez.

Era por meu espírito que, muitas vezes, eu agia contra os meus interesses.

Titânico e, não raro, tirânico, não me permite fugir do que eu acredito. Faz doer-me o corpo antes de que qualquer apito. Tão rápido age, que preciso manter afiados os meus instintos. Só eles me salvam. Só eles me curam.

Cabe às mãos do espírito esculpir meu coração em sua forma. Cabe à alma muda-telepática servir de guia. Cabe ao egoísmo, dúbio sentimento, servir de escudo. Cabe ao orgulho, fuga do espelho, saída combativa: não dobrar a espinha a urro, murro ou mordida!

O tigre, predador, também é o meu mentor.

Eu não faço por aplausos porque os aplausos, traiçoeiros, nem sempre vêm pelo correto. Na maioria das vezes, não... O correto é morto! Meu corpo sinaliza: a ética é divina! Porque, muitas vezes, morta; agonizante, sempre, ressuscita.

Eu faço pelo certo ou pelo estranho certo dos avisos simbólicos de meus premonitórios pesadelos.

Quando meus olhos nublam... Quando meus ouvidos fecham, existe, em algum lugar, um olho que nunca me trai.

Ainda tenho mil olhos... Ascos e engulhos ainda são os mesmos. Em meu coração, ainda cabem mil outros. Não tenho espaço para o frio ou o morno!

Ainda preciso ser vigilante com minha tendência de viver anseios e enfrentar bloqueios como se a resistência fosse inesgotável. Invisto nos freios!

"Se é para amar, que seja inteiro; se é para odiar, que não a ti mesmo."

A poesia é meu esteio, escudo e treino de alta sensibilidade, que é tanto dádiva quanto ruína. Não hesito! Abraço minha jornada ou sina.

Do egoísmo, pesco as mãos do espírito; das mãos, o esboço do meu coração. Do orgulho, pesco o abandono às causas perdidas; das causas perdidas, a lição de que compaixão desmedida só leva à morte. Da saraivada de tiros, pesco a sorte de que o Espírito um dia cansa, quando a consorte Alma, muda, perde-se em um labirinto.

O seu resgate é guerra pior que qualquer guerra. É guerra contra um inimigo que não se pode deixar morrer.

E, de um fundo escuro, desconhecido e frio, uma voz sussurra:

"Conforme sentias, antes a forca do que a camisa de força! Conforme sabias, o espírito não deve, não pode ser contido, somente guiado. Conforme não sabias, não existe coração-massa-amorfa, cuja forma precisas encontrar dentro de mil formas... É equívoco! Há corações fluidos como água... Que forma queres? Procura o recipiente! Conhece o aceite. Aceita o que é. Flexível, elástico, fluido, teu coração se adapta ao que move teu espírito. Entretanto, compreende que, nas feridas e nas cicatrizes, tendo mil olhos e ouvidos, a polifonia de mil vozes torna-se ruído, é cacofonia que abafa a voz minha: Eu, Alma Tua, Tua Eterna Guia."

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Escrito em 23-01-2017 Ilustração Arilton Flores Página no facebook: Alta Sensibilidade - Deise Zandoná Flores

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