Encarcerado


Pertenciam ao mar, as estruturas todas iguais umas às outras dentro de nós. Como uma casca de noz que esconde uma castanha, nas manhãs, o travesseiro silencia o que não deve ser trazido à luz: uma sombra, um vulto, um espírito que habita o reino do esquecimento e assombra. Um baú guarda segredos ao abrigo do sol, que tudo tenta desvelar sem pudor. No êxito, esconde o fundo do mar, onde a dor se afoga sem perdão. Os sustos sinalizam visitas de invasores... Passam... Fazem olhar para todos os lados, impedem baixar a guarda, enquanto os soldados dormem e o forte fica desprotegido... Um som, um zunido fecha os ouvidos como água em uma piscina... Vozes distintas se tornam distantes... A gravidade se abandona ao sonho. E, no caminhar, desintegração... A terra se liquefaz atrás de cada passo. Firme passo só o próximo... A necessidade de velocidade aumenta, antes que a terra liquefeita alcance e derreta os pés. Os peixes nadam em sentidos contrários... Nem obedecem a limites, nem são capturados por redes. E, na luz da lanterna morta que carregamos, a maldade da inocência que preservamos... O cardume agita-se em ambientes desconhecidos. Bolhas de outras realidades os confundem... Abandonam-se, os peixes, voluntários à morte antes do ataque. Preservam a órbita mais do que a Vida! De que servem suas existências, sem os giros que os mantêm unidos? Fogueiras em qualquer pedaço de Terra... Lixo de tecidos puídos queimam... Pele calcinada junto de amores nocivos... ... tanto mais nocivos quanto menos amores. É confuso um mundo, onde guilhotinadas e coroadas cabeças falam de tronos de ouro, iluminadas pelo sol, com pompas de realeza, enquanto o efêmero corpo sentenciado perece na masmorra, entre nuvens que se desfazem em tempo seco. Incinerados e buscados em arrependimento, os inocentes corpos condenados, em sua natureza, pelo estandarte da cultura... Quando serenos, pescoços crescidos e o olhar das girafas: pequenas cabeças enlameadas se afogam no pântano! As cabeças coroadas envenenam os cavalos... E o cavaleiro, agora lento, em terreno pantanoso, precisa fugir das armadilhas que ele mesmo criou e aposentar as guilhotinas, que separam as iluminadas cabeças dos - assim vistos - pútridos corpos. Ao ver o panorâmico cenário, o cavaleiro se abandona aos tigres... Ao ser devorado, torna-se um deles: altivo à luz, íntimo da lua, ataca por trás, furtivo... Enquanto os sustos imperam nas portas, os tigres patrulham o terreno, vasculham os travesseiros, os celeiros que guardam os segredos, as castanhas, onde as nozes foram, outrora, esquecidas. O cavaleiro se alimenta de uma a uma, combustível para o incessante trabalho de aposentar, no celeiro, as guilhotinas. Olhos nos olhos, imagens refletidas, tigre e cavaleiro são um e o mesmo. Dormem e passeiam no planalto, onde todos os cavalos estão correndo.

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Deise Zandoná Flores Ilustração de Arilton Flores

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