Onírico


Observo as pedras no sopé da cachoeira... Caminho sobre elas, em direção à piscina profunda de águas límpidas e transparentes. Dezenas de serpentes verdes me cercam... ... rastejam por entre minhas pernas. Não me permitem retornar à terra... Não as temo. Ouço vozes... Do alto da cachoeira, um jovem e um velho conversam... Este salta. Já havia saltado muitas vezes. Conhecia as serpente. Não as temia. Queria chegar ao fundo, nunca conseguira. Convida o jovem que, às cegas, atira-se. E, ao ver as serpentes, entra em choque, quase se afoga... Em profundo desespero, afasta as mais próximas... Foge. Nada horrorizado rumo às pedras. Serpentes se enroscam em suas pernas. Freneticamente, retira-as uma a uma. O velho convida: "Vem! Não as temas! Nada fazem, apenas conduzem..." O outro já não mais ouvia, apenas rastejava, corria das serpentes por sobre as pedras. O desespero cega até que, em terra seca, as serpentes desistem e o abandonam... O velho insiste... Toma um fôlego. Torna a mergulhar, a observar, a desviar das serpentes, que nadam, em torno dele, como um cardume de arenques. Tenta ir cada vez mais fundo, aos desvios, enquanto elas o conduzem às laterais. Nadam ao redor, nadam embaixo, sabendo que, como muitos homens, ele também as evitaria. Iludia-se de que era possível chegar ao fundo sem se diluir. Despreparado, apesar de todas as tentativas, não se misturaria... Frustrado, é novamente conduzido à areia pelas serpentes. De fora, eu apenas observo... Eu sinto braços e pernas cobertos de serpentes. Elas me arrastam. Caio de costas! Erguem-se e me apoiam, como um colchão macio, amortecem minha queda. Conduzem-me ao fundo... Eu que, por pouco fôlego, mal mergulho... E o cardume de serpentes, como um turbilhão, nadam ao redor, nadam em cima, conduzem-me ao fundo. O ar em meu peito, escasso... E, quando mais fundo, eu ia, depois do breu, do escuro, um lugar iluminado... Pequena aldeia de casas de barro sem portas... Mulheres grávidas, diante das casas, caminhavam no fundo como em terra. Aguardavam-me. Assustada, sem poder subir, ouço uma voz lírica que diz: "É assim mesmo. Teu castelo é logo ali." - Apontou-me com o dedo. Grávidas ou carregando seus bebês. Não havia homens. Só mulheres, bebês e serpentes. A pressão aumenta... É quando o cardume se afasta para a grande matriarca, que me abraça e empreende a me apertar o peito. "É assim mesmo. Ela tira todo o ar para, então, a água entrar" - a mesma voz. Quase sem conseguir respirar, acordo do sonho suada... Em semivígilia, ainda ouço o chamado de vozes longínquas. Sono e vigília se confundem. E, do sofá, vejo casas à minha direita, vejo etéreas serpentes nadando no ar... Banho-me para me refrescar. E o coro de longínquas vozes afinadas, invocam-me em cantiga: "Deusa... Rainha..." Esgotadas as forças, retorno à cama. O sono me toma em rapto, à força, em seus braços, a despeito de sustos. No sonho, regresso ao mesmo lugar. A matriarca serpente solta meu corpo... ... abandonado à água, que invade pulmões e todos os meus orifícios. Conduzem-se, as mulheres, confusos os meus sentidos, ao que seria o meu modesto palácio. Deitam-me à cama: eu, em morno torpor, sentindo-me fraca, quase morta. Em verdade ou em delírio, sinto uma mão em minha testa: "Abre os olhos... E escuta..." Respiro água, eu por demais cansada e abandonada ao torpor nebuloso... "Ouve-me: é hora de repousar..." Retornaram às suas casas sem portas, guardadas por serpentes, que nadavam, formando portas vivas. Guardiãs de suas casas, como da minha, protetoras de seu sono, vigias de suas crias... Ao acordar, a notícia: "Estás grávida do Rei Mar." Todas, as que cá estão, pariram filhos e filhas do mar. Observo os filhos homens do fundo tranquilo, onde nenhum homem que, das serpentes fugia ou desviava, poderia chegar... ... exceto os que ali tinham nascido. Aldeias guardadas por serpentes, de predadores, de outros peixes... Bebês brincando com conchas e estrelas do mar... Onde mulheres não envelheciam, onde bebês de colo, meninos e meninas, cercados por cardumes de verdes serpentes, que nadam como cardumes de arenques, desenhavam, em torno deles, cercados que os mantinham protegidos. E, cá ao fundo, estava eu em paz, em lar que parecia, de outras vidas, de outras eras, desde sempre, ter conhecido e habitado... ... respirando água, cercada de serpentes, com meu ventre a gerar filhos gêmeos do mar.

******** Poema de Deise Zandoná Flores Ilustração de Arilton Flores

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