Às Moiras


Eu me deito sobre a verdade com a dor e a coragem ofertadas por linhas de enredos, tecidos fornecidos pelas terríveis Moiras, senhoras do destino. Terríveis até serem acolhidas... Injustas, quando questionadas... Autoritárias... Entra em conta, a sabedoria das velhas, presentes em toda a história do tempo e nas histórias individuais de todos, independente das feições de seus rostos ou das pegadas deixadas na areia das dunas, que voam sobre os ombros das velhas corcundas. Os sonhos de todos os peixes sujeitos... Em curso, novos trajetos... Torcemos pelo tear; nunca, pela tesoura! Que venham as novas agulhas, provações das velhas às fragilidades de nossas vidas descortinadas! Dançar nos espaços entre as costuras... é a liberdade de um qualquer fado pré-definido! E os sonhos se incluem aqui. Eu ainda brinco com ideias de destino, embriagada pelo feitiço do tempo em que estive enroscada. Faço desenhos que estão livres. Sigo sem pensar em todos esses conceitos... São só exercícios que faço para não adormecer nas brumas do desconhecido, esperando passiva um tudo que nunca chega, inebriada de futuro ou de cativeiro do passado. Loucuras de cegos a queimar os pés gelados no asfalto... Seus pés rachados, às velhas, atribuídos, enquanto terminam de rasgar tecidos já puídos mas ainda vivos... Eu me deito sobre a verdade. Eu me cubro de desejos. Eu me dispo de pudores. Eu expio as minhas dores e vivo!, enquanto a minha linha não for cortada pelas Terríveis, a quem respeito com toques de amor e ódio, a quem oferto o meu ócio, em suposto comércio por uma continuidade, que eu não sei se será acolhida. Nem palpite, nem suposição, só um coração ávido eu tenho... Eu danço até formar um novelo, com o zelo que eu não me tinha no passado... Agradeço pela linha extra, além do ponto em que tentei cortá-la. E, o tanto que já ganhei, hoje eu celebro... Não estou cega a tudo o que veio! Creio que até estão generosas a este ponto da minha estrada! Oferto à elas este poema esperando que aceitem, em retribuição ao amor que veio há poucos anos, e que pôs - e ainda põe- décadas de misérias em perspectiva... Não justifica o sofrimento... Não explica o inexplicável... ... mas deixa-o, finalmente, no passado! O amor, que entrou neste ponto da linha, desfez os nós, teceu uma blusa para me abraçar no frio. Trocou as interrogações por pontos finais... Eu não posso mais dizer que congelo, apenas que enlouqueço em meus sentidos, brincando, com novos tecidos, o tanto que o gelo antes me desnudou e paralisou. E todas as coisas doidas, que se impõem a mim hoje, as minhas paixões, desfruto-as nua, dançando para a lua, sorrindo às Moiras, quando vejo, no portão, o rosto que esteve no ponto onde um nó formou um nós. (Ilustração de Arilton Flores)

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