Marte em Vênus


Zunido de abelhas em meus ouvidos... Ferroadas em minhas amídalas... E eu sugada pelo tornado, que arranca telhados, que devasta o terreno, a começar por mim... É um pequeno crime. É um passo em falso. É um gatilho conhecido que, nem por isso, deixa de detonar todas as bombas em mim... Sugada pelo furacão que eu mesma sou... Descentralizada pelo peixe trêmulo e raivoso, que arrasta o outro mais dócil e sereno... No espelho, eu, desfigurada... Das profundezas, o turbilhão surge com a velocidade e a imprevisibilidade de uma explosão. Urge uma saída... No entanto, o vácuo é mais forte do que qualquer pretensão. Nuvens piroclásticas, maremotos, convulsões, abalos sísmicos, protótipos de morte e o fantasma do suicídio... Dilúvios, tremores, raios de ira, trovões... E, na ânsia da raiva, a lava escorre lentamente do ventre da terra por entre minhas pernas... E o fogo da ira é o mesmo da luxúria... Nenhuma água ou brisa me apaga. E o gelo do desespero é o medo do eterno retorno ao gelo... E, pela alça dos meus cabelos, o deus da guerra se aproxima. Não há conversa que pare o insano. Não há plano que cerceie os ventos da destruição. Marte não teme... Só ele enfrenta a besta. Sem armas... ... no pelo e no pescoço apenas. A coragem, que mata o monstro, é a mesma que salva a deusa. Traz os ventos ao sopro de origem quando, em uma gravata - minha vertigem-, restringe o ar que entra em meus pulmões. É quando o desespero, disperso em tornado e lançado em todas as direções, retorna, com o universo encolhido, ao corpo. É quando os ultra-pensamentos são calados pelos golpes e contragolpes... ... e os sentidos todos concentrados em tentativas limitadas de captar um ar restrito. O pescoço em agonia e a dor na carne... ... e o espírito de volta ao corpo, em um transe extático... ... místico? divino? O agora toma o seu trono por direito: o império do presente no universo encolhido. O disperso é reintegrado, em um ponto a meio caminho entre a cabeça ao corpo, onde as estradas estão ameaçadas pelo bloqueio. Os paralelos traçados caem por terra... As portas da percepção fixadas em território neutro: artifício temido, porém, não evitado. E, em um gatilho reverso, da explosão à implosão... da destruição à rendição... ... o pescoço faz calar as tempestades, que desligaram o espírito em descargas elétricas. ... o pescoço instaura o reinado do corpo, afasta os zunidos, serena os tremores, cessa as ferroadas... As abelhas são reconduzidas ao seu favo em técnica calibração... A caverna, canalizadora, conduz a lava ao seu destino: o preparo da terra para a semeadura, sem candura ou censura, onde os cavalos correm ritmados, e as abelhas produzem o seu agressivo e doce mel. ____

* Ilustração de Arilton Flores

#marte #vênus #eros #amídalas #gatilhos #convulsões #tubilhão #humor #ira #luxúria #fogo #suicídio #dilúvio #besta #pescoço #desejo #êxtase #místico #divino #sexo #espírito

9 visualizações
ATENA

ATENA

Adquira já o seu livro de poesias!

APOLO

APOLO

Adquira já o seu livro de poesias!

HADES

HADES

Adquira já o seu livro de poesias!

AFRODISIA

AFRODISIA

Adquira já o seu livro de poesias!

Patrocine a poetisa. Doe um cafezinho. Grata!

Siga-me nas redes sociais.

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram