Ode à Mãe Narcisista


Ó postulante rainha dos céus, divina juíza do universo, que tudo sabes e tudo vês, que sabes tudo porque assim o crês e, então, prescinde dos fatos, porque tu mesma os fabricas, onipotente que és! Ó deusa suprema, que falas por Deus porque és onisciente, conheces profundamente os Seus pensamentos! Condenas... ... a compaixão dos padres, para ti, permissividade, ... o sorriso das crianças, ... as escolhas de tuas amizades em visitar as suas filhas, em vez de entoar cânticos contigo. Consideras a doença de tua filha, ofensa à vida, traição à divindade! Em nome de Deus, tudo fazes, tudo podes, onipotente que és! Deus... ... esse ser, em tua prática, insignificante, porque perdoa pecados que, tu, ó sábia, jamais perdoarias. Deus... ... a quem invejas, ... de quem queres mais do que a ambicionada cadeira ao Seu lado, no lugar mais alto do céu: queres, o Seu trono, ocupar! Ó deusa de visão lúcida e divinatória, conduzias, no passado, nos bastidores de teu leito, o suplício de tua filha, em interrogatórios e torturas, para que adivinhasse e confessasse "livremente" os crimes pelos quais era punida e, assim, fazer cessar sua punição. E, em desapontamento à almejada confissão, tua irretorquível conclusão: "filha, erro maior, abjeta, amoral e demoníaca! Não és minha!" Tu, iluminada e misericordiosa, redentora de pecados inexistentes, por favor, redima-me! Ó deusa-mãe amorosa, que outorgou à menina, o fim da infância, o lúdico substituído pelo plantão à tua vontade, pois não assumias para ti a responsabilidade pelo cuidado de teu bebê, porque à ela atribuías, a tua luxúria impura e a existência de tal criatura! Ó deusa de sentenças irretorquíveis, que salga o terreno de tua cria, e a faz sentir-se insuficiente e não merecedora de tuas migalhas de afeto, oferecidas em alimento, menos por mérito do que por tua bondosa e divina generosidade... ... ao detalhe: quando te atendia aos caprichosos deleites! Pois que a fome e a privação de sono são educativas! Quantos sacrifícios são necessários para quitar a dívida de minha existência? Ó deusa suprema, que odeia tua filha, teu espelho é teu tormento: dele foges com a rejeição dos covardes! O mundo não é tu e, por não ser-te, é indigno de ti. Elevaste a ti mesma sobre os impuros, porque estiveram surdos à melodia de tua divina cantilena! Ó deusa, excelsior regina, tua divindade seca na ausência de adoradores! Em teus altares, cometo pecados: não deposito oferendas! E, como os deuses antigos não mais adorados, cais na vala dos indigentes anônimos, sem laços, sem descendência. Oferto, a ti, meu útero infértil, pela supressão do feminino pelo próprio feminino, e pelo medo de refletir, em minha cria, um milésimo de tua divindade esmagadora e assassina. As margaridas que depositei, por décadas em teus altares, eram flores irrigadas pelas águas do rio da ocultação e do oblívio, em que os teus feitos naufragaram. Ó magnífica, o peso da memória é cisma e liberdade! Tornei-me o que sempre fui, eu, de minha história, subtraída! Não te firo pelo amor que tampouco desejas. Conheço-te! Firo-te pela ânsia insatisfeita de adoração e poder! Não sou supliciada súdita ou plateia de tua vaidade. Não renegada, renego-te! Eu sou Afrodite! Dispenso tua herança-vaidade porque, desde tempos imemoriais, a maçã é comigo! Trago, em minhas mãos, a beleza dada pelo amor; não, o apreço às disputas, como tu, às custas de tua filha. A Musa da Memória hoje me toca e, em seu rio, mergulho e bebo de suas águas! Ó deusa onisciente, estás cega agora e reclamas? A Musa me toca e tuas cores, expostas, te envergonham! Que dó! És traída pela Memória que suprimiste e que, hoje, me liberta! Enquanto eu, conduzida pela Musa, com minha sede de história saciada em suas águas, deixo em teu altar, a partir de agora, o rapto ao teu reino de origem, a coroa de teu próprio nome: Esquecimento.

_____ Deise Zandoná Flores Ilustração Arilton Flores

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