Passe de Mágica


Décadas, o amor me era estranho. Um intruso em sonhos; em dias, delírio débil. Irreconhecido. Confuso... Andava em círculos, procurando um caminho, uma saída do labirinto, de olhos caídos. Foi-me sugerido perdoar... "O perdão é bonito. O perdão é divino." Raios ainda rasgam-me os céus. Sempre esvaziam-me o banco dos réus. E as feridas injustiçadas, irreparadas seguem a sangrar, pois que sei: reparação não há! Mas o sugerido nobre, reverberou, ao meu coração, de amor pobre... ... e, em um passe de mágica, toda a antiga raiva dissipada! Estou ainda atrasada comigo. Todos os conselhos soam-me interditos. Mas há o passe de mágica! Há! Décadas, erros não cometidos, castigados. Punições desproporcionais, torturas de regimes ditatoriais... E eu procurava um lugar onde pudesse ser mais do que um espírito constrito em um caixote apertado. Foi-me sugerido o perdão, que libertaria da mutilação. Do penhasco, jogada: um estímulo a voar... Foi-me dito que sorrir era uma escolha. Minhas escolhas, como de costume, erradas... Foi-me dito que a raiva é feia feito erva daninha que danifica a boa plantação... Foi-me sugerido um abraço... ... e, em um passe de mágica, toda a antiga raiva dissipada! Fuga, às pressas, de um assédio. Salário que ficou para trás, como antigas secretárias que descobri grávidas. Culpas atribuídas a mim: "O que eu fiz? Para quem, desta vez, eu sorri?" Jogada de volta e doente à dependência econômica de meus algozes... Mas sorrir era só uma questão de escolha... Foi-me dito que o perdão libertaria de tudo o que antes sufocou. Seria o segredo da ressurreição dos mortos de que todos possuíam a fórmula? Eu desconhecia... Eu não aprendia! Plantei um sorriso amarelo no rosto que cegou os olhos de todos para o opaco dos meus olhos... Acaso faria diferença se o vissem? Pergunta retórica... ... e, em um passe de mágica, toda a antiga raiva dissipada! Quase uma década e, olhando para trás, eu ia bem demais... ... construindo uma carreira promissora, talvez apenas a velha, a acenada cenoura... ... aquela mesma que me apontava a iminente compra da minha carta de alforria... Ao menos, eu a sentia próxima... ... quem sabe, anódina, eu sentia meus pés leves rumo à saída... Foi-me dito que estava logo ali... Foi-me sugerido um parque... Relaxar era só uma questão de escolha... Era só optar pela alegria e aumentar a curva do sorriso. Eu não aprendia! O logo ali era a cenoura que mantinha o burro longe do sepulcro. Foi-me sugerido o perdão. "Alivia o coração. Introduz a resignação." Raios ainda rasgam-me os céus. Sempre esvaziado o banco dos réus! E esvaziadas minhas experiências agonizantes... Túmulo, eu preferia ao espírito engasgado em tanta bondade congelada e distanciada que, do alto do púlpito ou altar, apreciava minhas mazelas e desventuras julgando: "Gazela teimosa e desinteressada! Sem força de vontade, será que não mente? Por certo que mente! Ninguém vive esse exagero! Pois que é louca, se vive o tempo todo em desespero!" Céus e Terra... Raios de misérias destinadas ao esgoto, sob os tapetes vermelhos dos bondosos e bem-intencionados, onde também foi parar a minha pedra, eu, removida dos seus sapatos... Comemoração! Foi-me sugerida a humildade, do alto de altares de sabedoria, com olhares de soslaio e narizes torcidos para tudo o que, em nós, fede. Foi-me sugerido o divino perdão, curiosamente, pelos mesmos que me mutilaram que, curiosamente, eram os mesmos que se orgulhavam de abandonar as mágoas. Face a seus edificantes exemplos, em um passe de mágica, toda a antiga raiva dissipada! Pois que todo o sugerido é uma postiça cura contida em um clichê quando ignora o sensível e o contexto, ambos hoje démodés. Pois que o meu nariz deveria permanecer apontado para a terra sob os meus pés! Sob todas as solas, correm esgotos... E alguns querem que só os outros os mirem, enquanto direcionam seus rostos para os céus. A quem serve essa humildade? A quem beneficia esse perdão... ... ao torturado ou ao torturador? Alçando-se exemplos, professando sabedorias em frases genéricas... Foi-me, à exaustão, sugerido o perdão. E, pelo tempo em que meu espírito esteve dormente, comprei superfaturados alguns clichês, apenas para lembrar-me de penar duas vezes: uma pela bem-intencionada tortura, outra pela supressão do pecado da raiva. Curve-se! Humilhe-se! Beije o chão onde pisam os torturadores! É, na Casa de Judas, que a vítima é crucificada, tornada mártir para ser esteticamente apreciada, para uns, bondosa; para outros, idiota: sinônimas no dicionário da hipocrisia. É tornada apenas um adorno no altar dos virtuosos, que sempre têm uma solução para os outros, nas pontas de suas varinhas de condão, enquanto os narizes seguem distantes do chão. Raios ainda rasgam-me os céus! Eu fui colocada no banco dos réus!, por recusar-me a entregar o sol a quem, se ainda pudesse, manter-me-ia nas trevas. Humildade é uma virtude para o julgado; em nenhum ponto, tangencia o colegiado de autoproclamados juízes. Face à sentença, das feridas, eu, em convalescença... ... e, em um passe de mágica, toda a antiga raiva dissipada!, nas páginas de algum livro de autoajuda... ... que eu queimei, quando me ofendeu o espírito; ... que me foi ofertado, em um breve momento, em benefício do próprio enaltecimento, dizendo a si mesmos: "Hoje eu cumpri o meu ato de caridade!", tão voluntário quando a prenda paga para adentrar os céus. Em alguns momentos, eu admito: eu me divirto!, retirando as tampas dos esgotos, em meio às Festas da Bondade... ... é quando minhas misérias, tornadas raiva, tornadas força, dissipam-se, de fato, em gargalhadas! ****

Poema de Deise Zandoná Flores

Ilustração de Arilton Flores

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