Post Mortem


Os novos mortos esperam a vacância das numeradas e limitadas sepulturas.

Há tempos, decidiu-se não abrir mais buracos no solo. Eu não deveria dizer buracos, é deselegante, mas covas. No entanto, covas me fazem pensar em desovas de corpos assassinados (talvez seja pela rima básica e pobre). E isso não tem nada a ver com assassinato. Falo de Concursos Públicos.

Os novos mortos (nem tão novos assim, mas ainda jovens no além) já cansados de esperar pelo descanso final em suas covas (vamos deixar por covas mesmo, é mais poético), ainda precisam esperar os mais antigos mortos desocupá-las para os velhos mortos (na escala post mortem, por ordem crescente de defuntice: defunto fresco, jovem, velho, antigo).

No entanto, nada disso acontece: nenhuma é desocupada. E há séculos nenhuma cova é aberta. E nenhum morto, em toda a história da humanidade, quis deixar a sua, por livre e espontânea vontade, para ceder lugar a defunto fresco.

Os Concursos Públicos de Covas, abertos todos os anos, servem apenas para Cadastro Reserva. É possível dizer que existem mais mortos na espera do que enterrados.

O processo é atravancado e burocrático. É uma redundância proposital colocar esses dois termos juntos na frase, que fique bem claro. É um périplo o que um indivíduo morto enfrenta até o descanso final.

Circulam rumores de que jovens mortos, amotinados, tentam ocupar covas improdutivas. Fala-se também em Reforma Funérea, mas nada disso foi feito até então. De qualquer forma, é uma ilusão. Não adiantaria nada porque, em caso de desocupação de uma vaga, os primeiros da fila, que disputariam a segunda fase do Concurso de Covas, morreram há mais de 480 anos.

Há promoção por antiguidade e mérito associados, que ninguém sabe explicar como funciona, nem quais são os critérios porque, ao que parece, sai por sorteio do Sistema.

Vez ou outra acontece de um Osteoporósico se decompor e liberar uma vaga, mas é um caso raro. Isso gera um imenso caos funéreo. "Imenso", neste contexto, é ênfase pleonásica estilística, uma espécie de redundância garbosa.

Os que estão empatados nos primeiros lugares não esperam a segunda fase do concurso, com medo dos amotinados, e começam a se sabotar. Alguns mais ousados, e diga-se por demora, desprovidos de ética, tentam assassinar os outros.

É quando o povo que está no fim da fila, os fresquinhos, explodem em gargalhadas fantasmagóricas e exclamam:

"Os velhacos estão há tanto tempo esperando uma cova que já esqueceram que estão mortos e tentam se matar!"

No entanto, em raras ocasiões, aparece um defunto fresco mais espertinho, de QI mais elevado que, além de saltar as fases da vida escolar e ingressar na universidade aos 6 anos, saltou as fases da vida mesmo e morreu mais cedo, para estragar a festa dos defuntos mais medíocres e bem inseridos no esquema:

"Gente, vocês estão rindo dos velhacos, mas eles estão aqui há quase 500 anos. Olha o que temos de esperar ainda? Até lá também estaremos esquecidos, tentando nos matar uns aos outros."

Depois de dizer isso, o inteligentinho explodiu em uma gargalhada sarcástica, com a empáfia de quem sempre saltou as fases da vida e igualmente saltaria as da morte, conseguindo uma vaga mais cedo que os demais.

O que aconteceu foi ainda mais esdrúxulo. Os jovens e os fresquinhos, tomados pelo ódio e inveja do inteligentinho (afinal, até os vermes que o devoravam pareciam, à esta altura, possuir uma certa aura de sabedoria) também esqueceram completamente que estavam mortos e tentaram assassiná-lo. A concorrência é tão cruel, as hostilidades são tão acentuadas e o clima é tão inóspito que todos perdem as estribeiras.

Vendo, do alto da velhice e à distância, os jovens com toda aquela energia de quem ainda está em decomposição e tomado pelos vermes, os velhos lá do início da fila, virados só em ossos brancos e secos, perceberam o ridículo da situação e se regozijaram. Orgulhavam-se da sua experiência de morte. Na morte, essa "vivência" é chamada de morrência.

Eles se sentaram calmamente. Entreolharam-se, no fundo vazio dos buracos que um dia foram os seus olhos e riram, com a empáfia serena de que só a ressequidão e a experiência na corrida (eufemismo para espera prolongada e tediosa) por uma cova poderia conferir.

Um dos velhos mortos (impossível identificá-lo, já que são todos iguais e estão há tanto tempo lá que já nem lembram quem são), proclamou (jovens dizem, velhos proclamam): "O vigor da juventude só resulta em asneiras."

O fresquinho inteligentinho, que também era bom de ouvido, lá do fim da fila de quase 500 anos de comprimento, proferiu (os ordinários dizem, os inteligentes proferem), de forma impetuosa e irrefletida:

"Se, dos velhos, ninguém mais sabe quem é, qualquer um poderia tomar o lugar e pegar a próxima cova, que jamais qualquer burocrata do Esquema Funéreo poderia objetar! Isso aqui é uma bagunça mesmo!"

Todos os outros, os intermediários, que estavam catatônicos, subitamente despertaram. Vale ressaltar que, em qualquer fila, são os primeiros (na espera de um breve atendimento), e os últimos (recém chegados que ainda estão impacientes com o tamanho da fila) os únicos que estão acordados. O resto permanece em estado de dormência catatônica.

Dito isto, retomo. Todos os outros, que estavam catatônicos, subitamente despertaram. Explodiram em uma fúria irracional e predatória tentando se matarem uns aos outros.

Foi uma guerra violenta (não posso dizer sangrenta), onde só se ouvia ossos batendo e só se via vermes saltando para todos os lados. Tudo pela próxima cova, que nem ideia se tinha de quando seria liberada.

Enquanto isso, os deitados, deliciosamente acomodados em seu descanso eterno (que já não parecia mais tão relaxante), preocupados com o ineditismo da situação, enraizavam-se cada vez mais.

Silenciosamente (como a morte deve ser, já não basta o barulho da vida), um deles pensava consigo:

"No meu tempo, cada um esperava a sua vez; hoje em dia (embora os antigos mortos já não saibam mais o que é hoje nem o que é dia) os tempos são outros. Só balbúrdia."

O colapso da estrutura funérea estava instalado. O sistema burocrático composto pelos Indefinidos, os que não se sabe se estão mortos ou vivos, desde então, flutua. Não regula nada e vive só para si mesmo, por si mesmo e em si mesmo: ensimesmado.

Ninguém fazia qualquer menção de desocupar uma cova. E, lá fora, um infindável número de ósseos e decompostos, esquecidos de si mesmos, continuavam irracional e obstinadamente, a tentar vencer as intransponíveis barreiras da morte, tentando proporcionar nova morte (uma espécie de segundo estágio ou morte nível 2) aos seus concorrentes, num terrível, embora risível caos predatório.

Desse caos, pode-se tirar uma grande lição: mesmo na irracionalidade, são os sonhos que motivam os homens, ou os seus ossos, ao menos.

Para aqueles querem saber o desfecho desta história, posso afirmar que eles estão relativamente bem... Bem assim: continuam se atacando há 186 anos.

Nenhuma cova foi desocupada. E o número de mortos só aumenta.

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