Livros Emudecidos


(Antes fôssemos crianças curiosas diante de novos textos, e não lhes impuséssemos nossos solidificados preceitos, muito menos o emudecimento fechado, esquecido, empoeirado em alguma estante de um lugar qualquer. Quem sabe doses homeopáticas de desinibição cognitiva?)

As letras são chatas; as fontes, miúdas. As páginas são monótonas; as mentes obtusas. A linguagem é densa; a atenção, difusa. A impaciência não pensa. A disciplina é intrusa. E lá se vai, a passos trôpegos, a esfomeada e franzina cultura, aos urros, espatifada e moribunda... Sem prêmio ou recompensa, nada além da chave do cercado, onde as ovelhas estão balindo para um qualquer porco engravatado. Se, goela abaixo, além do pragmatismo racionalista, entrasse a arte da leitura... Se, goela acima, além dos alaridos fossilizados, saísse criatura viva, filha do pensado e do refletido... ... na terra, brilharia o ouro do garimpo. ... setas apontaram, quiçá, outros caminhos. ... pérolas não restariam perdidas aos porcos. ... olhos veriam mundos em uma tela. ... vozes não seriam jograis binários, cristalizados. ... das janelas, sairiam ventos de originais ideias, em vez de saliências atropeladas e abissais de tagarelas, quiçá sementes, quiçá potências, em vez de materiais inócuos e esterilizados. A negação da profícua leitura ou o seu expoente, o orgulho da não-leitura não é mais que cega obediência à tendência ao tangenciamento do conhecimento, da erudição do discernimento, da sabedoria e da cultura. A resistência independente está no inverso do balido, está no filtro da leitura, direção à autonomia, Está no fim da falação-censura à reflexão, que precisa de bons livros, de silêncio e disciplina. Deliro lugares onde a reflexão fale mais alto do que urros, grunhidos, balidos e falação. Deliro mundos povoados de autônomos magistrais, em vez de um mundo afogado em autômatos funcionais. São delírios disfuncionais e, por demais, irracionais para um projeto ordenado e racionalizado de mundo distópico... ... que a quentura das minhas ideias, face à frieza dos debates, faz qualquer assumida insana profetizar e versificar.

******* Deise Zandoná Flores Ilustração de Arilton Flores

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