A Culpa do Sangue


A consciência da queda do paraíso, dívida de tempos imemoriais, pode atingir "a que vive", aos onze anos...

A mácula corre pulsante e anuncia a dor que desagua como cachoeira de sangue. Não seria o bastante, tampouco o princípio... ... mas o contínuo de um esquecido, suprimido. A mácula fêmea encarna a culpa da queda. Impura, imunda e ignorante, temendo a doença, sem tradução de nuances. A carne cifrada recebe a sanção, conhece o pecado, herança do Éden e, sem julgamento e condenação, a sentença: no rosto, a bofetada! "És suja! Impura! Te veste!" Condenada e confusa: Que mácula? Que nua? O ventre pulsa, contorce, expulsa a si mesmo, como quem quer se livrar de um pecado imputado. E a dor calada? E a pele pálida? Danação! Penitência! O grito do ventre e a bofetada... ... a vida quer falar e me arrebenta! Acaso devo morrer destas dores? Que pudores me obrigam a calar? Que fiz de mal? É sonho? É real?... Essa agonia não deve perturbar ouvidos e assepsias... Interdito da fala: a voz cala a dúvida que, como verme, corrói o corpo e a mente, sem nem mesmo ameaçar o tabu... Que posso eu fazer para conter tal hemorragia? Inocentes e pueris vestidos jogados ao lixo com o que sobrou dos brinquedos... Em lugar, novas vestes que ocultassem aberrante silhueta de menina-moça que despontava. Sem saber do que se tratava o interdito silêncio... Dentro do muro, o instinto constrito, a angústia e a dúvida: desta vez, enfim, decidiram me deixar morrer? Pequena almofada de algodão entre as pernas... E, dentro da cerca da ignorância e da dor, a criança assustada chorava o descaso. E o corpo, carente de afeto, obedecia. Mergulhava a infâmia no oblívio, punia por crime desconhecido. E o corpo perdido, traído, gritava! Enlouquecia, sufocava a ânsia do espírito de vida, de morte... E os hormônios... ... e os humores, minha triste sorte, seguiam aos picos e aos vales. E, às velas, eu pedia perdão e o fim do castigo. O mundo gritava-me a morte do feminino! Eu bem que, às vezes, exausta, também o queria, mas pulsão em mim não consentia, não sucumbia... Traída pelo mundo ou por mim? Suja pelo sangue, marcada pela culpa do nascimento. Criatura torpe, traída e traidora, conspurcada pela natureza, conspurcante da ascendência e do nome. Degredada do amor, em nome de Deus. Todo o sonho de pureza estava, então, falido. E, entre a dor, o sangue e as roupas que escondiam o corpo, o prenúncio de um resgate fármaco em auxílio: o aviso médico de que o beneplácito da farmacologia viria restaurar saúde e minimizar desconforto. Choros! Gritos! Brigas! Insônia... Apocalipse no seio do núcleo familiar... Cumpriria, criatura fêmea, destinada ao pecado, o seu destino mítico? O Eclipse... E a Grande Noite devorou semanas no calendário... E, depois de ameaças e promessas de castigos posteriores, em castigos prévios, as advertências zelosas e amorosas... ... e o demorado, o decepcionado, o ressentido assentimento, oriundo apenas da obrigação cristã de caridade desinteressada: a aceitação de que a saúde da torpe criatura dependia da mancha conspurca das pílulas da desgraça! Estaria ela liberada dos imperativos naturais para pecar, sem ficar grávida? Horror abjeto! Maldição! Maldição que se abateu sobre inocente família: acabada estava toda a possibilidade de descanso. Vigilância cerrada necessária, em nome de honrado nome. Apocalipse com endereço preciso... ... e o eclipse dos últimos vestígios de inocência, expresso em um caderno amarelado: "enquanto você olha para os céus, a terra devora os seus pedaços." E a menina, predita desgraçada e desonrada virgem, liberada, pela cultura, estaria para pecar nua? "Que erros cometemos para sermos assim punidos, a não ser dar à luz a criatura maculada de maçã, de serpente, criatura-filha do diabo?" E os terços e santos se multiplicavam pela casa... E, em aula, a descoberta da condição humilhada, a explosão de risos e a queda na vergonha: minha ignorância do ciclo natural. E o sangue de mulher, por muitos anos, seco, suprimido, rompe, pela raiva, a primeva represa: a bofetada, dádiva perene da menarca, que parecia rasgar-me a todo o ciclo. Era padecimento de sangue que, a duras penas, conseguia ainda verter do interdito. Décadas de queda... Abraçar a lua foi por demais difícil... E a dor do ventre, que outrora me rasgava, eu já não sinto... ... desde que empreendi devolver intermináveis anos de agonia em sucessivas bofetadas sob a forma de poesia.

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