Limbo


Ei, rapaz, vem ver homens devorando homens. Eles falam com seus olhos de sangue. Eles ouvem algo de que não gostam e logo tratam de querer matar. Eu estou doente, dizem todos. Eu não deveria me importar. "O que não tem solução, solucionado está?" Então, por que há algo, em mim, que insiste em se rebelar? Eu vou dançar com a doença. Eu vou foder com a doença. Eu vou morrer com a doença, mas eu não vou morrer por ela. Tristeza é coisa que nem sempre se pode ver. Os olhos falam, mas nem todos conseguem ler. Deixo contigo, rapaz a decisão de vir ao mundo ou não. Serias forte para aguentar o que vês? Eu não fui... Minha doença parece nada, se comparada ao que há lá fora Eu amo quem nunca foi concebido... Se é que um amor por aquilo que não existe Eu digo "fica onde está", ainda que isso me deixe triste. Nem é tanto pelo mundo que me invade, quando pelo limbo que há em mim. Como receber-te em um mundo assim? Deixo contigo a decisão de vir a este mundo ou não. Eu tentei ser forte, mas não consegui. Eu nasci frágil e, antes da hora, amadureci. E, antes de estar madura, apodreci. Na primavera, eu me fiz semente e germinei. Hoje, eu me empenho, dia após dia, tentando evitar a autofagia. Mal tenho forças para mim em alguns dias. Sou torrentes sem represas que as contenham. Não consegui terminar a viagem sem quebrar. Dizem que fui por demais forte até desistir. Seria eu forte para te proteger de minha escuridão? Sou tão irada quanto quebradiça. Se estivesses aqui, eu te diria: "Agarra-te em mim com a força de tuas mãos. Eu não sei se conseguirei te segurar. Eu ainda tento não me sufocar em todos os meus nãos. Eu baterei, com força, braços e pernas para não nos afogar. Embora, apenas espectro... Embora, às vezes, tão perto... E é com isto que, de ti, eu me despeço." Deixo contigo, meu não-nascido filho, a decisão de vir ao mundo ou não. Meu relógio atrasado, acho que nunca funcionou. Eu ainda tenho meus gatos a me fazer companhia. Eu ainda tenho milhares de filhas-poesias. Não te sintas na incumbência de vir preencher qualquer carência de uma quase-mãe mutilada e irresolvida. Eu vou dançar com a doença. Eu vou foder com a doença. Eu vou morrer com a doença, mas eu não vou morrer por ela. Não mais... Tristeza é coisa que nem sempre se pode ver. Os olhos falam, mas nem todos conseguem ler. E se, em meus sonhos, todos os vaga-lumes estiverem reluzindo, sou eu dizendo que você seria muito bem-vindo. Diz-me um adeus onírico, que eu te liberto. E é com essa poesia que, de ti, eu me despeço.

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