Castelo de Cartas


A espiral pede o escape... Quantas voltas tem essa mola que sempre torna ao mesmo ponto? Sempre bate no fundo e fica lá por um tempo. Eu não aguento... ... acaso está enferrujada? Eu cansei de repetir esse percurso. Os ventos do passado ainda me derrubam. Meu castelo é feito de cartas. Minhas fortalezas ainda são feitas de caixas, como as cidades que eu construía, aos quatro anos de idade. Minhas vigas são feitas de penas, de palitos... São bonitas, mas o que sustentam? Minhas emoções ainda vazam, como as lagunas que eu construía, de barro e água sobre tapetes e carpetes, aos quatro anos de idade. Eu desconhecia o fundo... Eu desconhecia o que há no fundo. Metáfora da minha vida futura: minhas represas arrasavam as cidades feitas de papelão. Semanas e semanas de trabalho e apenas uma inundação... A espiral pede o escape... Quantas voltas tem essa mola que sempre torna ao mesmo ponto? Eu preciso velar e enterrar os mortos, como os velórios e enterros que eu fazia das colherinhas de café, com flores para homenageá-las, com orações e cruzes feitas de palitos de picolé. As saudosas crianças, tragicamente mortas em acidentes, atropeladas por meus carros de papelão... Dias e dias de trabalho que terminavam em desastre e tragédia, aos quatro anos de idade. Metáfora de minha vida futura: alguém invejoso, mais velho e mais forte me segurava e me afogava, em uma piscina plástica, aos quatro anos de idade. Quem viria por mim, senão outro menino, tão pequeno e tão jovem quanto? Minhas pontes de papelão não me salvaram da correnteza. Elas me traziam a convicção de que não havia, de que não haveria ninguém por mim. Eu sabia disso aos quatro anos... ... quando não havia mais fantasia e ilusão; ... quando procurei amigos estranhos; ... quando me pus a aprender a ler, por acreditar que, nos livros, amigos mortos viriam por mim. Ainda criança, um dia, um mensageiro-amigo-mentor me presenteou com alguns livros difíceis e instigantes, enviados por meus falecidos amigos, que pareciam preocupados em trazer cores aos meus desenhos... Neste dia, os ventos me disseram que eu poderia confiar em mensageiros-amigos-mentores... Por anos, eu me iludi... Anos depois, eu descobri... Muitos anos depois, eu descobri... Eu desvendei os truques, os embustes do tempo... ... o retorno à piscina de plástico: o afogamento por alguém mais velho e mais e mais forte, como da primeira vez... Desta vez, não havia um menino. Desta vez, ninguém veio em auxílio. Depois de muitos anos, eu descobri... Nunca confie nos ventos! Eles sempre derrubarão os castelos de cartas.

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