Garbosas Naus


Eu conhecia o assoalho quando estive no auge. Eu sabia que o barco fazia água. Eu só podia retirá-la com um balde. Era uma tarefa ingrata e inútil, mas o que eu poderia fazer, além de remar até encontrar terra firme? Não havia material ou ferramenta. Não havia nada para consertar. E eu arriscava a me afogar. E, no auge, antes de encontrar a margem, a exaustão, que corria mais rápido do que eu, alcançou-me. Eu sabia que, mais dia menos dia, isso aconteceria. Eu só esperava estar em terra para descansar. E, antes do barco afundar, sem milagre ou auxílio, eu decidi não esperar. Eu saltei em busca de um desfecho antecipado e conhecido. Respirei água, enchi meus pulmões. Sacos e pedras amarradas aos pés e aos pulsos (presentes ganhos para uso em caso de necessidade). Eu me projetei ao profundo escuro oceano. Despedi-me da vida que eu conhecia e, antes de me afogar, congelei. Seria o congelamento uma forma esdrúxula de salvamento? Paralisada ao fundo, vendo um mundo multidimensional sem poder agir, interferir, como uma espectadora de minha própria vida. Todas as fases e idades (ou quase), simultaneamente, diante de meus olhos... Memórias suprimidas surgiam em avalanche. Nenhuma força para romper o gelo era suficiente. Como um espectro preso ao limbo, assistindo a tudo, angustiada, o desespero. Às naus, a vida continuava leve, a despeito de mim. E, entre o que há e o que foi, a pele desligada para a visão clara, para a alma alma ver tudo o que precisaria matar para viver, livre da casca de barcos fazendo água. Vivi a minha vida toda em um barco quebrado, remando à procura da tal "terra à vista", tentando não morrer pelas feridas, ou pensar no "presente de grego" do barco, como única alternativa de vida. Naveguei longas distâncias, apesar de tudo, evitando a violência necessária final. E, tudo o que o delírio mostrava, era, de alguma forma, real. No fundo, eu encontrei o monstro. No fundo, eu aprendi a respeitar a sua ira e o seu rancor. No fundo, eu o trouxe à superfície e aprendi a fazer a minha própria sorte. Invoquei e abracei o tridente, meu regente, e o seu poder. No fundo escuro, a alma aprende a ver; Na morte, começa a viver. No assassinato, a alma atinge o seu ápice; Na destruição, instaura o caos: derruba todas as garbosas naus e suas vaidosas tripulações. O que esperavam os maus: complacência? Envoltos em pompa e poder, lançaram semente, potência, ao mar para morrer. Mergulhada em desespero, abraçada à corrida por terra firme, ocupada apenas com a sobrevivência. Jogavam migalhas, mal esperavam que amor vira ódio. A linha é tênue. A ira é a contraparte da doçura. O rancor é a contraparte da ternura. A inocência é convertida em morte. Sabedoria em delegar, à cada parte, a sua sorte, o seu quinhão de responsabilidade. Neste mundo absurdo, a inocência apenas sobrevive incólume se, do outro lado do muro, existe alguém disposto a fazer o trabalho sujo. A refeição dividida entre o bem e o mal... ... forças equilibradas, próxima etapa. Agora eu moro na água. Agora eu lanço as tempestades, protegendo as minhas têmporas. Do assoalho quebrado, eu já não preciso. As garbosas naus, derrubadas são, uma a uma. Longe da terra, da redoma de suas vaidades, estarão nuas. Sempre coube, a mim, o trabalho sujo de que todos lavam as mãos, mas de que dependem para viver e se manter puros. E, agora, que as naus fazem água, não há ninguém que a retire, ansiando por terra firme, até à exaustão? Tempestades lançadas em sua direção. Mostro o sol, como um oásis, miragem logo à frente, que jamais alcançarão. De alma nua, o mundo não parece mais assustador? De alma nua, lanço os espelhos da tortura. As imagens refletidas, nem garbosas, nem bonitas... Naus perdidas na tempestade, sem farol e à deriva, conhecerão o fundo. Conseguirão, na água, respirar? Conhecerão, na água, a dádiva do congelamento? Do fausto de seus valores, na superfície do oceano, de pés secos e superiores... ... ao degredo! Sem molhar os pés, sem agradar o monstro, sentenciados sem misericórdia, no fundo escuro, perderão a imagem de seus rostos, antes de fechar os olhos.

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