Sala de Espera


Na sala de espera do consultório psiquiátrico, uma mulher chega esbaforida e diz:

- Nem sei porque meu médico me mandou vir aqui. Eu não sou doida nem nada! Você tá esperando alguém que tá lá dentro?

- Não.

- Vai consultar?

- Sim.

- Ai, você me desculpe... não quis ofender... Mas sabe... você não me parece doida.

- Obrigada!?

- Sério... Sério mesmo! Você não parece nem um pouco doida! Você já viu aqueles malucos? Eles sim precisam desses médicos! Tipo: admiro o trabalho deles... Eu jamais teria paciência pra isso... Você me parece bem normalzinha.

- Ah... é porque a senhora não me viu quando a coisa pega de jeito...

- Éeeeeeeeeeee???

-Sim. Quanto o tempo tá pra chuva...

- Nooooossa! O que acontece?

- Eu acredito que sou um poodle.

- Cachorro?

-Sim. Começo a latir sem parar... urino pelos cantos da casa pra demarcar território. É um horror!

-Cruz credo! Você... não parece... Não me parece mesmo!

- Obrigada. Mas a coisa fica feia. Muito feia.

- Como assim?

- Fico latindo a noite toda. A vizinhança fica puta e começa a atirar pedras. Às vezes, elas acertam. E machuca. Tá vendo esse hematoma na minha perna? Foi de uma pedrada forte que eu tomei. Meu marido brigou com o vizinho, depois me botou na coleira e me levou de volta pra dentro de casa.

- Meu Deus!!!! Mas... você não consegue lembrar que você é você?

- Naquela hora eu sou um poodle.

- Aaaahhhh...

- Fomos expulsos do condomínio. Hoje moramos numa casinha na área rural da cidade.

- De certo... por causa dos latidos?

- Não só isso. Mordi a perna do vizinho.

- Que horror, menina! Mas não parece mesmo... você fala tão direitinho...

- Tá sol lá fora.

- Mas me diga: o vizinho não viu que você estava doente? Não chamou um médico? Nem o seu marido?

- Esse é o problema. Eu fico convincente. Eles acreditam que eu viro mesmo um cachorro...

- Jesus, Maria, José! Mas ninguém te enxerga?

- Enxerga sim. O problema é que eu transmiti raiva. O vizinho não era vacinado.

- Raiva?

- Essas coisas, que mexem com a cabeça, mexem com tudo.

- Entendo... Ai, meu amor, acho que não vou ficar... Não é por nada, não. Você me desculpe, mas eu não tenho nada dessas coisas. Nem sei porque o outro doutor me mandou aqui. Deve ser outro doido.... Ai, meu deus, desculpa... Você pode me fazer um favor? Avisa o doutor que eu ligo para ele outro dia? Meu nome é Marta.

- Sim, claro.

- Obrigada. Desculpa qualquer coisa. Bom dia pra ti, menina. Melhoras!

- Obrigada. Bom dia para a senhora também.

A mulher sai da sala.


No meu horário, o psiquiatra abre a porta, despede-se da paciente.

- Oi Deise! Tudo bem?

- Tudo!

- Passou bem a semana?

- Sim... Ah, a Marta estava aqui conversando comigo até agora e me pediu para te avisar que não poderia ficar. Ela disse que te liga outro dia.

- Deise...

- Sim?

Um olhar inquiridor e...

- Deise... O que você fez dessa vez?

... o meu quase sorriso:

- Doc, pode me dar um copo de água? Tô com um pouco de sede...

- Hummm... claro, Deise...

- Obrigada!


*******

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