Resposta


É uma opção estar nos braços do mar. É uma tal sorte de devoção não se furtar ao que vem, ao que veio, ao que virá. Sentir tudo pode me fazer aos pedaços, pode me fazer arder ou me afogar. Ainda assim, eu escolhi sentir. O gelo e a dormência hoje passam longe de mim. E eu só tento permanecer distante. E tudo parece tão calmo no fundo do mar, que eu penso ter encontrado a corrente que me leva para casa, depois de ser atingida e lançada, com uma força que despertou um corpo que parecia morto. O desespero nunca me pareceu tão terrível quanto um corpo insensível. O abraço do mar fere a carne para despertar. Esteve sempre esperando por mim. E eu cumpri o roteiro escrito a duas mãos pelo abraço do mar e pelo sim. E eu cumpri os passos imprevistos do instinto. E todas as lágrimas, que hoje chovem de mim, ligam-me ao lugar ao qual sempre pertenci. Mar, eu preciso de ti. Ficarei aqui, onde o escuro pode ser quebrado por uma nesga de sol; ou no fundo, por um peixe translúcido. As ondas continuam quebrando sobre mim, desde que eu me entreguei aos braços do oceano: estou entre outros que abdicaram de suas pernas por nadadeiras para nadar a favor da correnteza. É uma opção que eu fiz e, desde então, a beleza me cumprimentou, em imagens que eu jamais poderia prever e que eu tento, com ou sem sucesso, transcrever. Enquanto a linguagem é limitada, as sensações podem transcender. E eu persigo um espectro maior de cores, de nuances, de texturas. É menos um desejo do que o preço que a vida cobra para ofertar qualquer coisa próxima da arte e da poesia. É uma opção estar nos braços do mar, onde é preciso se afogar para aprender a respirar, onde a pressão é capaz de esmagar, onde a devoção leva à entrega ao fluxo desconhecido da corrente, que deixa a sensação, sem qualquer aviso ou direção de me levar para casa. É uma opção sentir tudo: do enlevo ao desespero da queimadura na pele nua, entregue ao reflexo da lua, às cinzas da aridez... ... tudo ao seu tempo e a sua vez. Buscando ardentemente o refresco pacífico que segue o afogamento que se deseja permanente, mas que também se mostra efêmero. Não ceder ao medo; permanecer inquieto e sedento; abandonar os escudos; correr o risco de morrer; deixar vir o que vier... Nos braços do mar, está o preço de criar.

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