Ardis das Presas


Ó! Eu deixei minha filha para ser desmembrada pelos lobos! Ela tinha veneno em sua pele, como eu. E, na primeira mordida, eles caíram sem cair. Paralisados, congelados no tempo... Eu podia sentir a sua dor... ... a dor de ver o mundo girar em sentido anti-horário, sistema digestório paralisado... ... enquanto, lentamente, destino belo, feneceriam. Minha menina saiu à mãe. Ferida... Acuada... Curada... ... pela raiva. Garras afiadas... ... afiou também as presas. Sozinha, abandonada na floresta, precisou aprender a lamber as próprias feridas. Passou fome, passou sede... Passou frio, passou calor... Aprendeu a se alimentar na obscuridade, a encarar feras sempre maiores... ... e, sempre com veneno, a deixar-se morder... Intempéries dos frágeis às feras... Feridas saram. É o preço da vida: deixar-se ferir para não se deixar matar; aprender a matar para não ter de morrer; adiar o fim abrupto, heroico, tragicamente belo, certo para qualquer criatura selvagem. Um último olhar... Ela sobreviveu. Um último olhar... Ela compreendeu. Um olhar cordial... Ela cresceu. E, em terceira pessoa, com lembrança circular, arranhada e rouca, eu me narro a mim... "A mãe não foi cuidada. Não saberia cuidar. A mãe se pôs isca para os lobos. Não adiantaria fugir... Eles estariam sempre à espreita. À esquerda da carência, à direita da inanição, eles estariam no seu encalço, esperando um instante de distração. Ofereceu-se em sacrifício, com veneno em sua pele: única e decisiva aposta, oferenda, derradeiro destino, tramado silêncio. Os lobos vieram todos ao mesmo tempo... Ela esperou... ... e o mundo congelou." A filha, à vista, repetia o destino. Invisível, omissa supervisão... Ela, reconhecida pelas mesmas marcas: as minhas marcas... ... mordidas... Um último olhar... Ela sobreviveu. Um último olhar... Ela compreendeu. Um olhar cordial... Ela cresceu. Eu deixei minha filha para ser desmembrada pelos lobos! Ela tinha veneno em sua pele, como eu. E, ao se fazer isca, única estratégia... E, ao se fazer alimento, derradeira aposta, o meu legado de raiva, e ela imperou soberana... Lentamente, congelados, eles morreriam de inanição. Lentamente, congelados, eles morrem de inanição.

******

#filha #ardil #presa #lobos #olhar #ab #abandono #sobrevivência #legado #raiva #métis #inteligência #marcas #mãe #inanição

2 visualizações
ATENA

ATENA

Adquira já o seu livro de poesias!

APOLO

APOLO

Adquira já o seu livro de poesias!

HADES

HADES

Adquira já o seu livro de poesias!

AFRODISIA

AFRODISIA

Adquira já o seu livro de poesias!

Patrocine a poetisa. Doe um cafezinho. Grata!

Siga-me nas redes sociais.

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram