Sutilezas


(Belos sorrisos existem perdidos em qualquer ordinária esquina - de monotonia- do acaso com a sorte, assim como perfumes cuidadosamente escolhidos. Tentativas de sedução nunca me seduziram.) Amante da luz, não esquece de amar também a sombra! Não, não é tarde!, para descobrir onde está a chave do cofre. A sombra - e principalmente ela-, no lapso, no distraído relapso, assume o trono, veste a coroa de ouro, impera, vaidosa, sobre as flores do campo. Com seu brilho reluzente, ofusca os olhos, impede-os de ver a terra seca. Sob a coroa da sombra, há terra seca! Eu protejo os olhos. Eu contorno o reflexo... Eu amo primeiro a mania, o lapso o tropeço. Eu amo primeiro a gafe, que esconde o cofre no sótão. Eu sinto, em um franzir de olhos, um gesto sutil, quase imperceptível. Eu ouço as mesmas histórias, esquecidas e recontadas de um mesmo jeito, de um jeito diferente: tudo o que eu preciso para adentrar... ... os porões de segredos, medos, terrores, sujeiras abandonadas, tralhas acumuladas; ... o estado de quem pronuncia o meu nome, no pronome que a voz embargou. Para além do que é controlado... Para além do que é dito... Para além do mote de aproximação, do charme, da sedução... ... eu garimpo o mau humor, o segredo, o fantasma, a mania irritante que me faz rir (de raiva?). ... eu garimpo a dor, o tornado, o espirro, o tropeço brilhante, o café derramado na camisa, o cabelo selvagemente desgrenhado, a guerra, a pressa, o engano, o erro, a palavra mal colocada; ... eu garimpo o arrepio, os pelos eriçados dos braços, o calor, o morno e o frio; o que deixa as mãos frias no calor; o que faz suar fora de tempo, longe do refúgio. E, em um franzir de sobrancelhas, no caminhar, no caminho errado que tomou, no embargo, na censura, na autocensura, no ângulo que a ternura desenha nos lábios, na preocupação com besteiras, nas atitudes-asneiras... É no que eu vejo... É o que primeiro eu amo: a fragilidade expressa através do escudo, a porta batida por engano, o equívoco, a superinterpretação... Não há nada mais sedutor... Não há nada que acenda mais a paixão do que aquilo que está nos pontos cegos, e que somente eu enxergo. O que não se tem controle... ... é o que me acende e me controla; ... é o que puxa meus olhos feito ímã, e eu quase não pisco para não perder nenhum detalhe do tesouro da gafe, da bagunça que não era para ser vista, daquele trejeito, a mania única e singular, das mãos que balançam e gesticulam. O Tesouro do cofre em minhas mãos... ... e eu protejo os tesouros com as minhas armas. Por que haveria de deixar inseguro... ... aquilo que derruba os meus muros? ... aquilo que derruba quaisquer certezas, que eu nem mesmo sei que tenho? Eu amo no conflito, no que não é bonito... Quando eu amo a sombra e o selvagem... Quando eu capto o código e decifro a mensagem... ... qualquer adorno ou gesto sedutor é complemento bem-vindo, embora apenas complemento. A luz confere brilho às cores existentes, mas eu quero ver as cores verdadeiras à sombra. E depois, o brilho... E o que me seduz... E o que me prende... ... é o que escapa ao controle; o animal selvagem escondido no ser polido; a agressividade sob a veste da ternura; o tangente e o que tangencia o enredo principal; os meandros mais do que a trama e o contexto; os limites, as cercas, a transgressão, as fronteiras; o que é feio naquele que se esforça em fazer bonito... ... porque quando as defesas estão baixas, a sombra prevalece. O desejo de quem ama o selvagem não arrefece! Para quem sabe ver na sombra, o dia nunca escurece! Aos olhos negros da Noite, o tempo nunca anoitece! A luz é apenas expoente de brilho para as cores verdadeiras, permanentemente, verdadeiramente sedutoras! (Belos sorrisos existem perdidos em qualquer ordinária esquina - de monotonia- do acaso com a sorte, assim como perfumes cuidadosamente escolhidos. Tentativas de sedução nunca me seduziram.)

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