Flor de Impossível


Todos os que te ensinaram não sabiam algo a mais. Ofertaram trapos e velhos calçados que não abrigam do frio, nem protegem das pedras e dos espinhos. E, no pensamento, é possível fazer tudo o que não se faz na realidade. E, no pensamento, é possível tornar tudo real em um delírio que pode fazer sorrir. E, no fim, não é disso que se trata? Sorrir um pouco, antes do fim, mesmo que não passe de ilusão? E como temos pena daqueles iludidos! Não deveriam ser eles a ter pena de nós... ... como a mulher apaixonada que todos os dias, às dezoito horas, esperava arrumada e maquiada o marido morto há trinta anos? ... como a mulher apaixonada que, por quinze minutos, todos os dias, chorava a sua ausência e, então, retornava animada à vida insana, a fazer do dia seguinte um novo grande acontecimento? Por mais de vinte e três horas do dia, feliz em seus belos sonhos, festas e fantasias, em seus cuidados de si, em sua autoestima... ... mais jovial e saudável do que qualquer outra mulher da sua idade. Expansiva, extrovertida amante das boas coisas, vivendo um sonho. Quantos de nós consegue ver brilho na vida fora de um delírio? Prolongou a alegria dos primeiros anos por todos os anos da vida. E quem lhe ousaria tirar esse brilho? Quanta beleza há no delírio! Quanta beleza há na loucura! Receitava ilusões como cura à depressão que via ao redor... Quanta piedade tinha de nós! Quanta força e consolo fornecia porque os extraía de seus delírios? E quem sorria tanto por dia quanto ela? E quem era tão loucamente lúcida quanto ela? Quanta sanidade há na loucura? Quanta sanidade há na loucura! Quanta loucura há na sanidade! Não seria o excesso de lucidez uma espécie de tortura? Se o insuportável insiste em nos assombrar, o impossível não seria a nossa cura? Todos os que te ensinaram não sabiam tanto. Ofertaram trapos e velhos calçados que nunca abrigaram do frio, das pedras e dos espinhos. Às vezes, os delírios estão logo ali, como bálsamos, sopro de ar nos pulmões para contornar o trágico, com um sorriso lúcido e possível. Foi essa Flor de Impossível que eu vi no jardim de ilusões que alguns insistem em chamar de hospício.

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