Faca na Garganta


Ele era culpado pela faca em sua garganta... Quem sou eu para dizer o que quer que eu diga? Ele foi sentenciado, pelo juiz da coragem, sem ser sequer julgado. Eu não tinha nada... Eu não tinha nada contra ele... Nada? Efeito colateral... Alguns remédios são prescritos pelo seu efeito colateral. Não somos tão puros quanto gostamos de acreditar. Isso é real. Ele era culpado pela faca em sua garganta sem o ser... ... um obscuro e mórbido prazer em ver doer o nó de outra garganta onde a faca deveria estar. Não posso ser culpada pelo que eu sinto. O que se sente não fere nem machuca, enquanto está preso, quieto, feito bandido amordaçado em uma cela. Não sou hipócrita para evocar uma pureza transcendente e, assim, lisonjear minha própria mente com flores de uma beleza inexistente. Minha verdade pornográfica me exige nudez de falsos perdões para dar à alma vislumbre de paz. A polidez da persona quer justiça, enquanto a sombra do espírito quer vingança. Muitas vezes, sob a sombra do clamor por justiça, está o anseio de uma fogueira sacra em praça pública. Esse é o desejo mais primitivo: o de transformar a dor em circo. Queremos ser os espectadores e o gladiador, que rasga as entranhas de quem pôs a faca em sua garganta. E quem a renega... E quem rechaça a raiva... ... ou veste o manto de hipócritas virtudes, ou joga a raiva para dentro e adoece. Para desnaturalizar o absurdo, é preciso admitir o absurdo em nós. Há um algo de rebelde em toda a raiva: é a sensibilidade que não se deixa enclausurar pela racionalidade. Ele era culpado pela faca em sua garganta sem o ser... ... meu obscuro e mórbido prazer em ver doer o nó de outra garganta onde a faca deveria estar. Assim como eu era culpada pela faca em minha garganta sem o ser... ... quando fui jogada, como uma criança defeituosa, do alto de um penhasco. Efeito colateral... ... e isso é real. Eu não posso ser culpada pelo que eu sinto, quando o que eu sinto, esteve, por anos, escondido no profundo fosso da comiseração. Quem sou eu para sentir o que quer que eu sinta? É o que eu sinto... Eu fui culpada pela faca em minha garganta... Efeito colateral... Não somos tão puros quanto gostamos de acreditar. A polidez quer justiça. A sombra quer vingança. E não há mal... O que se sente é o que sente... O mal é o uso da justiça... ... para encobrir a sua sanha de vingança; ... para evocar uma pureza transcendente e, assim, lisonjear a própria mente com as flores de uma beleza inexistente.

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