É o que se quer


Vendo as nuvens formarem adagas, esperando as gotas de chuva como picadas de abelhas... São os degraus que descemos, quando vemos no que nos tornamos, quando um algo nos atinge em favor, quando um algo nos atinge em prejuízo. Eros já foi mais poderoso... Hoje é só um menino de fraldas disparando flechas, tão fútil quanto risível. Espero o deus de fumaça perfurar minhas entranhas com sua adaga mortífera. Todas as certezas morrem... Todas as seguranças morrem... E, por fim, morre-se sem morrer, como um relógio que ora parece se arrastar, ora parece nos sabotar. E, quando a vida faz seus perversos truques, prega suas perversas peças, papéis desconhecidos, teatro de improviso, milhões de erros sem conserto, milhões de peças sem ajustes... Os seguros estão à mercê. Os visionários param de ver. De sonhadores a ridículos, é uma fração de segundo. É o que se quer... De sonhadores a otários... Amantes e amados, ridículos sublimes sublimando ridicularidades. De enigmas insolúveis a quase-deuses invencíveis, é uma fração de segundo. É o que se quer... E o feitiço era veneno... ... e veneno é o que se quer. É atropelados e atropelos, corajosos sentindo tremor e medo. É missão suicida... É o que se quer. Ele se aproxima com sua adaga, apresenta a morte, apresenta a vida. Ele atinge em favor. Ele atinge em prejuízo. Ensina a doer, ensina a morrer de dor. E, em amor e caos (acaso não são sinônimos?) nós nos oferecemos docemente em sacrifício, prostrados como devotos a tão poderoso deus, à tão poderosa força, ao destinatário do nosso amor, tornado objeto dos nossos desejos. Esquecemos os compromissos, esquecemos a louça... Esquecemos o sentido da vida, esquecemos todos os sentidos... ... e os mapas se tornam enigmas indecifráveis. É um ego prostrado ao objeto do seu desejo. É um sujeito querendo ser objeto de outro desejo, objeto de outro ego prostrado, a si, em adoração. É um grande tornado pequeno e, quando tornado nada, tornado também imenso, arrogante e forte a qualquer golpe da vida, aproveitando os golpes de sorte, debochando da morte, ignorando a passagem do tempo. É uma viagem a esmo... O que é agora já não é mais o mesmo, pelo poder da adaga do deus indefectível, que é mais forte e poderoso do que sua imagem hoje, torpe, ingênua e risível. É encontrar um mar revolto. É enfrentar um terremoto. É encarar um sol furioso. É ser inútil e amado. É ser invencível e subjugado. É o que prostra para mostrar as asas desconhecidas. É o que bate para tornar gigante a vontade. É o cume do mundo e o perfume. É ser peixe e cardume... ... ou solitário-filho se esgueirando em busca de abrigo, fugindo do sol, suspirando, suplicando proteção à lua-mãe, (mãe de todos os loucos e, do amor, desabrigados), com o coração aos pedaços. É oferecer o corpo em sacrifício. É oferecer a alma em penhor. É temer enfrentar a dor. É tremer de frio no calor. É derreter, com a inexorável força de um vulcão, um enregelado coração. É o deus poderoso e sua adaga rasgando as entranhas, emergindo das nuvens, com suas gotas-abelhas de chuva, para dar-lhe, à loucura, picadas, para reduzi-lo ao nada em prol do inverso: oferecer-lhe, de presente, o universo. É qualquer coisa além dessa torpe mentira, que uma ilusionista cria para falar do inefável, do inexprimível.

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