Inimigos de Vento e Poeira


"Eu apenas ofereço ao Nada o meu Império de Poeira."

Quão frágeis são os muros que erguemos!, se estes portões queimam e se desfazem com qualquer centelha. Não havia nenhum Cavalo de Troia. Os erros começaram dentro de nossas fronteiras, e, no interior de nossa pequena fortaleza, foram soterrados para, quem sabe um dia, serem descobertos por arqueólogos... O nosso santuário foi profanado por partículas trazidas pelo vento. O nosso Imperfeito Império foi inundado pela Chuva Perfeita, que caía sobre nossas dispersas cabeças. Enquanto catávamos as moedas, como avarentos homens de mendicantes espíritos, não vimos o Ceifador que se aproximava, guiado pelos ventos dos nossos lamentos e suspiros. Nem suspeitamos... Havia água. Havia fogo. Havia farsa... ... e a fumaça nos sufocava. Como não percebemos a garganta seca, os olhos e as narinas ardendo? O Andarilho estava certo... Não havia nada a fazer além de rolar o barril. Ninguém viu que a guerra foi perdida antes de iniciar. E, ao invés de viver as horas, nós queríamos todos estar ocupados, em elevada missão que nos enobrecesse, acreditando ter feito tudo ou o bastante para defender nossos pequeno mundo e pertences. Nosso complexo de pequenez, traduzido na necessidade de heróis, na necessidade de termos e sermos heróis, corrói de dentro para fora, no instante além-tempo, no decorrer dos anos... ... ou agora. Não vimos os cavalos nem os cavaleiros... As mulheres perderam os seus cavalheiros para a brutalidade. As mulheres perderam a sua graciosidade. As crianças foram armadas, ensinadas a atirar nos muitos inimigos, aumentando ao infinito, se possível, o contingente para defender seu território... Elas só não sabiam aonde mirar! Como explicar às crianças os vestígios personificados de um delírio? Onde estava o inimigo? Todos pareciam apenas homens, mulheres e crianças, como aqueles homens, mulheres e crianças que conheciam. Confusas, sem saber aonde mirar... Um sopro do Ceifador... ... e as crianças atiraram em suas próprias cabeças! E, agora, lutar para que afinal? As crianças estavam mortas... A dor fez homens e mulheres estéreis em vitalidade, inférteis em vida e descendência. O rio de sangue, presente do Ceifador, crescia exponencialmente às crianças mortas. Labirintos nas mentes... Obtusas mentes labirínticas... O Andarilho assistia, impassivo à loucura, o morticínio. Sua voz inaudível na bolha do desespero... O Ceifador veio, em misericórdia, levar as crianças que os pais deixariam morrer, temendo os inimigos, fabricados em suas mentes danosamente férteis. A voz emudecida do Andarilho, outrora, só pedira paciência e rendição. E, no apogeu do desespero, o forte era só rota de passagem... O imenso exército que se aproximava nem planos tinha de atacar. A insignificante fortaleza, um lindo reino, um ponto rico em nada, era um ponto rico em avarezas, fantasmas e paranoias. Suas terras estavam secas e, na sua viagem, só de passagem, exército e caravana buscavam outras terras para assentar. Aos seus olhos, o pequeno reino, pouco parecia além de uma colônia de formigas. Soldados e caravana, homens, mulheres e crianças que, por ali passavam, sem compreender o ocorrido, perguntavam-se: quem haveria de impor fatal destino a uma colônia de formigas? Homens e mulheres, que defendiam seu imenso Império de Nada, durante a Chuva Perfeita, Tempestade de Consciência, abandonaram todas armas, contemplaram, em vislumbre, no reflexo do Ceifador-Espelho, o absurdo de si mesmos: o olhar vazio do grande monstro. E, no vazio do seu mundo, abandonaram-se à apatia para, no rio de sangue dos seus filhos, deixarem-se, inertes, afogar. O andarilho, um pouco mais triste e muito mais cansado, único sobrevivente do Destino-Dragão, trazia uma mente repleta de impotência, inutilidade e resignação. E, naqueles tempos de pleno terror, tempos imemoriais, eu fui a Criança morta, a própria Morte, o Andarilho e o Ceifador. E, no escuro vazio de avaros-homens-e-mulheres-imaturos, de um tempo fora e além do conhecido tempo, eu conjuro, em solavanco e prematuro desfecho, o que seria dor excruciante e prolongada tortura. O Ceifador, na morte, em misericórdia, às crianças, veio poupar de serem mortas, em mesquinha antecipação, por seus próprios pais, preocupados em catar moedas e combater inimigos de vento e poeira.

"Eu apenas ofereço à Poeira o meu Império de Nada."

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