Palavras em Desuso


Ética é só uma palavra hoje. É só um verbete que está em desuso. Porque o ethos, por caráter, já não encontra sua tradução. Moral é qualquer coisa que eu quero que você não faça, porque eu sou covarde demais para fazer. E, no fundo, tudo se trata de coragem de ser atingido pelos ventos das portas que eu abri. Você treme quando o vento entra pelas portas... Mas, veja, é tudo tão pequeno: os pesos estão fora de lugar, e as balanças não dizem o que queremos. E, no fundo, tudo não se trata de aferição? Eu acho que não. Eu conheço as pedras em que eu já tropecei. Elas foram jogadas na minha direção, em qualquer momento em que eu me posicionei, sobre qualquer coisa que eu já nem sei. Porque tudo se trata de acordar ou dormir, aderir ou matar, chorar ou sorrir. Endosso é um compromisso que só existe em nossos silêncios. Sempre estamos prontos para refutações. É mais fácil jogar pedras do que servir de escudo. E, porque a lealdade é só uma palavra em desuso, sempre cobramos juros de fidelidades quebradas, mas nem pensamos nas lealdades violadas antes disso: dispêndio de nossas capacidades cognitivas. É tudo um misto de compromissos firmados e dívidas transferidas a terceiros. Endosso é um compromisso que só existe em nossos silêncios. Ética é só uma palavra em desuso, criada por alguém que trocou as pedras por algo evanescente que não nos traz nenhuma vantagem. Ética é só uma palavra em desuso, um daqueles verbetes-escudo no dicionário puído de nossa humanidade. Porque, se é verdade que a consciência nos tiraria o sono, hoje existem bons remédios para dormir. É mais fácil jogar pedras aleatórias em qualquer coisa não aprazível - tantos mortos por nossas palavras-balas-perdidas!- do que servir de escudo em prol de lealdades, em si, inexprimíveis. A verdade é só uma palavra em desuso, perdida, em decrepitude, na boca de velho ébrio de humanidade. Deixamos amigos moralmente assassinados, confinados nas jaulas da nossa abstenção. Com grande devoção, rezamos por bênçãos de pedras macias. E, quando os amigos são apedrejados, rezamos em busca de redenção. O que você viu em mim? Esqueça, se pensa que me colocarei entre os corruptos e a justiça. Esqueça, se pensa que defenderei o injusto do incauto. Eu não farei. Armas em punho: defendemos a liberdade de todos os que dizem o que queremos ouvir. Armas em punho: cercamos os demais que nos são apenas entraves. E, com grave expressão no rosto, sitiamos professores, antes que terminem a primeira frase, porque sabemos tudo, sabemos tudo de que precisamos. E, se sabemos de tudo, por que ainda cremos precisar de professores? Nossa sanha de morte extravasa pelos poros: matamos tudo o que não está em um dos polos, por vontade de matar o que está no polo oposto. Nossa sanha de morte extravasa pelos poros: matamos tudo o que não está em um dos polos fixados a priori em nossas mentes fanáticas e obtusas. Porque a lealdade é uma palavra em desuso, cobramos fidelidades que nos tornam cúmplices de alianças criminosas. E a ética é sempre uma dívida cobrada, nunca paga, apenas postergada para um lugar qualquer onde a mente não alcança. E, porque está em um lugar inalcançável, é bem vista. Porque, se estivesse bem ali à vista, pagaríamos por ela? Eu acho que não. Porque, se a consciência nos tiraria o sono, hoje existem bons remédios para dormir. *****

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