Apaixonada Pelo Lamento


Eu estava apaixonada pelo lamento, a recordação última de um afeto que eu não teria mais. Eu não conseguia me libertar Meu coração estava enterrado na neve E no seu interior, ainda havia uma faísca sôfrega: o oxigênio estava acabando e logo desapareceria. Só restaria a velha e conhecida dor que nada tinha a ensinar. Eu revivia imagens e diálogos milhares de vezes apostando em novos ensejos, criando novos desfechos, como para me convencer de que ainda havia algo que valia a pena: quem sabe um motivo ou qualquer coisa menos que isso. Eu apenas não queria voltar ao início: "Se eu viver, se eu morrer, depende da sorte. Se eu viver, se eu morrer, depende do acaso. Os anos se passam e eu sigo no piloto automático buscando um passaporte, uma passagem só de ida para a vida ou para a morte." Eu estava apaixonada pelo lamento Eu recordava os precários e efêmeros momentos Eu estava perdendo o sono Eu tinha um tom fosco em meus olhos Eu nem mesmo nutria esperanças Eu só queria viver o momento (para variar) Eu só queria soltar as rédeas (para variar) Eu só queria perder o controle Eu só queria esquecer o meu nome (para variar) E desaparecer. Eu não estava nem aqui nem lá Eu nao estava onde queria estar Eu queria mergulhar profundo Eu queria desertar do mundo E se fosse para me afogar (que assim fosse) E se fosse para desesperar (que assim fosse) Eu queria qualquer coisa mais que meu mundo onde era tudo monótono e tragicamente previsível. E eu impotente e sensível para mudar qualquer coisa. E quem haveria de me escutar? Em meus delírios, eu encontrava a sanidade. Em meus vaticínos, eu via tudo às claras: as correntes e as amarras, a negligência da vontade. Mas que vontade? Eu queria trair a morna melancolia de um velho moribundo preso no corpo de uma jovem que polidamente sorria enquanto queria chorar, que polidamente chovia enquanto queria gritar. Alguém parece mesmo se importar? Eu não estava nem aqui nem lá Eu não estava onde queria estar Eu estava apaixonada pelo lamento. O sofrimento da perda recordava pequenas doses de alegria. O luto da perda enterrava pequenas doses de alegria: um algo para se agarrar à vida, Um algo para se agarrar à vida. Eu só não queria retornar ao lugar de antes: "Se eu viver, se eu morrer, depende da sorte. Se eu viver, se eu morrer, depende do acaso. Os anos se passam, e eu sigo no piloto automático, mirando e esperando me espatifar na montanha, e quem sabe explodir com um bilhete só de ida para a vida ou para a morte. E que decida a fina sorte porque para mim tanto faz." Eu seguia cansada como uma locomotiva abarrotada soltando baforadas até se esvair, em busca de paz em busca de paixão (perigosa e impossível contradição).

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#lamento #paz #paixão #dor #sofrimento

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