Minha Loucura


Minha loucura é minha lucidez de perceber na dor, composição de duas ou mais tristezas. É a beleza de tirar da dor a agonia. E como dói arrancá-la sem anestesia! Quase dói mais que a própria agonia! E há de ser tirada sem anestesia, porque com anestesia, mais se esconde a agonia e mais se tarda a retirar. Essa é a loucura a que chamamos sensatez, a imagem que toca ao se deixar ser tocada, a dor que irrompe ao ser invadida, o riso que brota em gargalhada terrível, crasso erro, um profundo desespero alijado do seu corpo... E onde foi parar o corpo? O corpo chora. A sensatez sequestra a identidade ao se fazer universal Mas o que é universal, senão a dor? Sensatez é pretensão que nasce natimorta, redemoinho devorando a própria ambição. Pretensão de não sofrer sozinho como se a solidão não fosse em si a própria dor...

Minha loucura é a minha denúncia dos marcos da violência, dos agentes da violência: lunáticos combatentes de moinhos de vento, combatendo lunáticas incoerências. E a alma esvazia, e o riso esmorece, e o corpo de mulher cessa de sangrar.

O verdadeiro louco é o que mata para amar... o que ama para matar o que no outro espelha a fera em si. O que se recusa a conhecer a visão que não lhe agrada: o monstro nos olhos da pessoa amada. Os seus sentidos obstruídos de civilidade. ataca os corpos obstruídos pela dor: outdoors de violência andando a passos ritmados, loucura-porta-voz da guerra e do frenesi, da loucura do mundo na loucura que se aliena do mundo por amor ao mundo, por vontade de estar no mundo, como em nenhum outro lugar, senão no mundo.

Minha loucura é minha lucidez indomável, que não aceita o inquestionável, sem contestar muito ou quase-tudo. Não é nada senão minha solidão no mundo, alívio profundo de ser um mundo inteiro sem ser solitária visto que o delírio anuncia o vazio, preenche o vazio, salva do abandono. O delírio permite a vida ainda que em fuga das sombras na parede, dos fantasmas nos rostos dos outros. (fuga desesperada mas ainda em vida). Que pessoa é mais solitária do que aquela que delira? Que pessoa está mais permanentemente acompanhada do que aquela que delira?

Minha loucura é um golpe de sorte à revelia da minha vontade. Salva da morte aquilo que prepara para a morte, e para o adeus necessário ao "muito prazer".

Minha loucura é ver o que deve morrer para que se possa viver. É viver tudo o que se deve viver, antes que se possa começar viver.

Minha loucura é o andar lento, extremamente lento para que se possa avançar. É parar de correr para que se possa voar. É pegar na mão do demônio, do delírio. É dar asas à alucinação. E quem poderia dizer que a alucinação é a imaginação que esqueceu de pôr os pés no chão? E quem poderia dizer que a alucinação é a imaginação sem terreno fértil para florescer? E quem poderia dizer que a alucinação é imaginação que fixou raízes no ar? Que nunca se deixou alcançar, senão por aquele que aprendeu a voar?

Minha loucura é abraçar os inimigos que me golpeiam. É dar a vitória a quem precisa vencer, receber troféus. Meu troféu é o céu claro, o corpo menos pesado, os pés menos cansados.

A sensatez é louca, tem pressa de sepultura. E a minha loucura é abraçar a cultura e chutá-la pelas costas, empurrá-la para que saia de zona de conforto, atropelando, sem hesitação, os loucos para que avance sem esmagar os frágeis que cruzam o seu caminho.

A minha loucura é a minha lucidez que abraça o contraditório, que se recusa a ser o que não deve ser. Minha loucura é não ser bode expiatório. É minha incoerência em dizer "não" à paz que quer calar a voz e amansar a ira, em renegar o que a hipocrisia esconde, e em esconder o que nunca deveria se mostrar.

Minha loucura é alimentar o medo e a cautela, é restaurar a dignidade e preservar o segredo do que jamais deveria ser dito ou exposto. O calcanhar de aquiles não se torna mais forte ao ser chutado. E todos temos algo que não deve ser mostrado: um segredo, um sagrado, um profano sacralizado.

Minha loucura é amar o torto e destruir o esquadro. É tropeçar no escuro, amaldiçoar o vento e quebrar o nível. É devolver o inútil ao sagrado indescritível. A minha loucura é não aceitar que o inútil vá parar no lixo. É rugir contra a utilidade que precifica pessoas e sufoca emoções. É adoecer de tristeza e inutilidade. É gritar por novos valores que já estão atrasados... ... acaso esqueceram de chegar? E quando vão chegar? Será que vão chegar?

Quando seremos tocados pelo que anda a passos lentos, pelos panoramas cinzentos? E minha loucura é gritar contra aquilo que é cinzento à luz do dia, o que é cimento, e o que cimenta a água fria, a grama verde, a fonte limpa.

A minha loucura é odiar a sinfonia da vaidade fria e viciada que a troco de nada se enaltece sem propor soluções a coisa alguma. E se afinal for só tentativa e erro? Ainda é melhor que o desespero e a apatia. E olhando para cima, procurando o paraíso, vê-se o desprezo evidente pelo aqui sempre imperfeito, vê-se cristais em apedrejamento, vê-se emoções petrificadas por quase nada.

Minha loucura é escolher o afastamento: para evitar o que se aproxima, o que se anuncia batendo à porta: afastar-se ou destruir? exilar-se ou devastar? É fugir para fugir de assassinar.

Minha loucura é evitar o inevitável, é solapar o importante importando o indecifrável.

Minha loucura é estar no centro do delírio, na beira do precipício, olhando o edifício da indiferença. É através do fictício involuntário denunciar a violência.

A incoerência da minha loucura é enlouquecer-me para trazer à consciência a violência da minha cultura, que me roubou o movimento, a propulsão e a impulsão, o sentimento, deixando no corpo vegetativo um formoso autômato funcional. A minha cultura que mata mesmo quando não usa armas. A minha cultura que tortura os culpados antes que cometam crimes E em nome dela se cometem crimes para evitar que crimes sejam cometidos. Um sono, um vício, um orifício no corpo inteiro, um ferimento incorpóreo sangrando por cortes fictícios, escorrendo pelos poros da pele plástica. Um vício cumprindo o que se espera dele: um check-list em relatórios, um corpo que mais parece um relógio analógico.

Minha loucura é matar, em mim mesma, a mulher que não vivia, ocupada em sobreviver de afetos glaciais, a mulher que para sair sem ter de matar, que para começar a viver: mata-se! fracassando em tirar a própria vida. A minha loucura é habitar todos os lugares, sem pertencer a lugar algum. A minha cidade tem meu nome por batismo, minha dor por sacrifício, minha devoção por oferenda. E já faço muito em dispor à vida meu corpo, corpo que leva o meu nome, de oceano, de planeta Vênus.

Minha loucura é habitar o lugar que habito, o corpo que habito, o louco em que habito onde os corações batem em um tempo à parte, sem medidas artificiais forjadas pela lógica, sem passado, presente ou futuro. Apenas momento, instante ilimitável no espaço-tempo, tempo medido em gestos de delicadeza, fruição e sensibilidade.

Minha loucura é minha lucidez de saber-me insana e rejeitar a sanidade. ******

#loucura #poesia #corpo #natureza #cultura #doençamental

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