Sapatinhos Vermelhos


Um dia eu andava pela cidade via muitos rostos conhecidos mas nenhum rosto tão querido assim para mim. Um dia eu andava pela cidade vendo homens falando e andando mas nenhum homem tão vivo assim para mim Um dia me vi em lugar estranho no mesmo lugar, gritando a vontade de me afastar dos edifícios construídos sobre fundações de sacrífico, com tijolos de culpa e cimentos de dor. Impossível escrever alma com tintas de sangue! E em lampejo do instante, impeliu-me a vida à distância da terra onde amor e desprezo se confundem. A proximidade, mesquinha irrelevância, que a provento de um Bem-Fumaça cobra usurárias penas do corpo. Entre o desejo e a impossibilidade, entre a vontade e a coação, brilharam reluzentes sapatinhos vermelhos, tão semelhantes aos vários que eu mesma fiz, que sucessivamente foram jogados ao fogo em diferentes momentos, por diferentes rostos (diários, poemas, contos, composições, cadernos, livros, artigos, autoria). A alma inúmeras vezes reduziu-se à cinzas. E quando a alma incendeia, incendeiam-se as memórias. Com os sapatinhos nos pés, pus-me a bailar... ... e a bailar canções de intrépida inocência, brincando a liberdade antes que subtraída - porquanto sempre subtraída- pelos agentes da virtude sempre à espreita. Pois que toda a beleza um dia é lançada às chamas, usufrua-se dela enquanto pode! Bailar! Bailar! Bailar até a morte! Há riso que brote mais sincero? E a bailar, coreografar a dança da morte flertar com o nada e abraçá-lo forte. Desaparecer! - eis a ordem do dia. Onde restava ainda corpo para os sapatinhos? Jazia na fronteira. Era fronteira. Prendia-me à vida medíocre o fantasma dos olhos de brasa e, eu combustível, ardia. E os sapatinhos guardavam-me de soslaio tão temíveis quanto desejáveis aguardando outro momento. E a despeito das penas, foram-me sopro de vida. Espírito livre, calce-os novamente! De sobreaviso do seu poder, calce-os! E ponha-se a bailar! Coragem! Saberei a hora de parar? Não! Quero parar? Não! Bailar! Bailar com os pés ligeiros! Nem o abismo ou a morte é pior que o cárcere, a mordaça e o gelo. Que os ventos me levem ligeiros ao desterro, pois que eu me sinta viva uma vez na vida antes da morte porquanto pior sorte é estar morto em vida! Olhos de brasa que me assombra a memória e me oblitera o pensamento deixe-me morrer, que há muito padeço! Expectância tua é morte lenta e sinuosa, a mais pérfida e cruel das criaturas. Bailar! Bailar! Bailar... ... até desaparecer. E um dia, andava pela cidade vendo muitos rostos conhecidos e nenhum deles tão querido assim para mim. Um dia, despedi-me dos rostos conhecidos, transformando abandono em soledade. E um dia, eu noutra cidade bem distante, tropecei em rosto que, de nem tão conhecido, era algo familiar, como um amigo. Estendeu-me a mão, convidou-me a caminhar consigo, para onde os ventos soprassem, para onde as fiandeiras quisessem nos levar. E os sapatinhos, já não os consigo tirar! "Calma! Imponho-lhes o meu ritmo! até que os consiga tirar! Não te são inimigos, só desconhecem os freios. Alinha tua respiração comigo! Vamos! Não te demores! É chegada a hora: eles estão distraídos". Sapatinhos! Sapatinhos, é hora da despedida! Ao lixo? Nunca! Circulem. Circulem. Encontrem pés que andam enregelados. Aqui já não os cabem, sapatinhos reluzentes. Recordarei eu da antiga arte? Conseguirei fazer os meus próprios e coreografiar, espírito livre, a dança da vida? E a bússola que me servia outrora de guia, olhos de brasa, tem o ponteiro-norte quebrado. Escute! Perceba, Afrodite! As portas sempre estiveram abertas. E se não estivessem, ainda haveriam as frestas pelas quais os sinais não deixariam de entrar. E os filtros? E os filtros, que falta me fazem... Mas a medida da vida é a medida que me sirva. E qual a medida do filtro? A medida da vontade. Um dia, andava eu pela cidade olhando rostos, anelando presente, passado e futuro, combustível da minha arte que destrói para reconstruir, para restituir no familiar, o assombro.

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