Um Bom Ano


Costumo tentar aprender alguma coisa das minhas vivências, sejam elas felizes ou tristes. Procuro fazer perguntas inclusive para o Tédio e ouvir o que ele tem a dizer. Normalmente, aprendo pela observação empática. Observo o que as pessoas fazem, como fazem, porque fazem. Imagino o que sentem, como sentem e porque sentem.

Aprendo muito lendo, pesquisando, ouvindo música e até mesmo vendo o balançar das cortinas. É quando o pensamento voa longe que ressurgem antigas lembranças sob novas roupagens. Sempre há um pensamento que leva a outro e, por fim, acaba por lançar alguma luz sobre alguma questão antiga ou contemporânea. Existem alguns momentos mágicos em que não surge nada. Existem vários deles, para falar a verdade. São momentos em que fecho os olhos e deixo o vento bater no rosto. Fico presente e inteiramente no presente.

Faço descobertas. A maior parte delas são gigantescas irrelevâncias. Não me preocupo muito com isso. Deixo os pensamentos fluirem sem censura: sem qualquer censura mesmo! Isso costuma me render se não bons resultados pelo menos alguns risos.

Não viajo tanto fisicamente quanto mentalmente. Nunca usei nada para ter esse efeito. Sempre fui bem "careta", como dizem. Já voo longe naturalmente, imagina se usasse alguma coisa!

Confesso que já fiz grandes e longas viagens no tempo ou no espaço. E nessas viagens, evetualmente eu também aprendo alguma coisa.

Sentimento é requisito para a compreensão. Sentir sempre fez parte de compreender para mim. Dificilmente olho passivamente um filme ou documentário. Quando o faço, poucas horas ou poucos dias depois é como se nunca o tivesse visto na vida. Praticamente nada retenho na memória. Assistir passivamente não funciona para mim.

Aprender alguma coisa depende de mergulhar fundo. Eu não assisto um filme, eu "entro" no filme. Eu não assisto um documentário, eu "entro" nas histórias narradas. Eu entro nos enredos dos livros, nas crônicas e nos poemas que leio.

Ora eu sou o narrador, ora o personagem, ora o destinatário quando ele existe. Às vezes, leio o mesmo texto várias vezes e escolho em cada uma delas um dos pontos de vista, um dos personagens. Eu sinto as diferentes visões e elas me transformam. Não é uma questão de escolha, é como eu aprendo. É um aprendizado estético: aprendo por meio da sensibilidade.

Ultimamente, um aprendizado em especial tem me ocupado bastante. Estou aprendendo a deixar ir. Eu percebi que não precisava muito esforço para ir bem longe nos meus pensamentos. O problema é que tendia a levar muita coisa comigo. Qual é o sentido de viajar se você leva a casa inteira?

Eu deixava ir muito pouco. O excesso de bagagem tornava as minhas viagens muito trabalhosas. Não que eu tenha guardado intencionalmente pessoas, momentos ou lembranças. Eu apenas esqueci de me despedir.

Ao não nos despedirmos, ficamos como se estivéssemos suspensos numa fenda temporal, em um tempo fora do tempo. É uma sensação de falta, uma lacuna de "não-sei-bem-o-quê" difícil de ser preenchida. Não é exatamente uma tristeza, mas um estado de inquietude e expectância. Nem sabemos pelo que estamos esperando mas estamos esperando por alguma coisa: não é pelo retorno do passado, nem por uma possibilidade irrealista de futuro. É uma inquietude indecifrável.

Conservei essa inquietude comigo por muito tempo. Aliás, nem me lembro da última vez em que não estive inquieta. Não seria exagero dizer que eu não estou inquieta, eu sou inquieta. Eu tenho uma mente inquieta.

Na minha inquietude, inevitavelmente acabei revendo muitas coisas, resignificando muitas experiências e lutando para não resignificar outras. Lutei para preservar algumas memórias. Nas minhas insistentes revisões, percebi que passei muito tempo tentando manter por perto quem parecia viver a anos luz de mim, embora estivesse fisicamente do meu lado.

É difícil deixar ir quando se trata daqueles laços "sagrados e indispensáveis". A questão é: para quem são sagrados e indispensáveis esses laços? A resposta pode ser muito elucidativa. Pode ser que sejam "sagrados e indispensáveis" apenas para você.

É importante aprender a deixar ir as expectativas. Em alguns casos, deixar ir as pessoas também. Eu deixei ir pessoas e expectativas até porque já estava ficando chato carregar um saco de frustrações para cima e para baixo.

Estou aprendendo a levar uma vida mais despojada. Doei para uma universidade a pequena biblioteca dos tesouros que garimpei ao longo de anos para minha tese. Não fazia sentido guardar o enxoval do filho não nascido. Levei 5 anos para deixá-lo ir.

Finalmente, consegui deixar quando me dei conta de que o tempo passou e aquilo já não me dizia mais nada. Fez muito sentido durante um tempo. Já não fazia mais. Eu nem tinha percebido que tudo ficou pequeno demais, insignificante demais e não me dizia mais nada. Os mortos não falam e eu prefiro deixá-los em paz.

2015 foi o ano de deixar ir em paz. Deixei ir os julgamentos alheios. Deixei ir alguns bloqueios. Deixei ir o excesso de autocritica. Deixei ir algumas projeções. Deixei ideias irem de mim. Deixei textos sairem das gavetas.

Ainda estou aprendendo a deixar ir as minhas tristezas. Ironicamente, essa é a parte mais difícil. Quem quer tristezas? A verdade é que as nossas tristezas não vão embora espontaneamente. Elas necessitam de compromisso e disciplina.

De todos os compromissos que já assumi, esse é um dos mais gratificantes. Já carreguei por muito tempo as bagagens de outras pessoas. Demorei a me dar conta porque as coisas não acontecem de repente. Um dia você carrega "uma coisinha" para um; no outro, outra "coisinha" para outro. E de pequenas em pequenas coisinhas, chega o momento em que você percebe que esteve carregando mais do que podia suportar e simplesmente não consegue dar mais nem um passo à frente.

E aí você solta o excesso de bagagem. As coisas se acumularam muito e agora precisa soltar tudo de uma vez. Precisa desagradar, desapontar e frustrar todos aqueles que contavam com você para fazer a parte que era deles. É preciso aprender a frustrar as expectativas alheias. É preciso aprender a desapontar.

Esse momento traz aquele que vai se tornar o seu maior aprendizado. Você aprende a separar as sementes e percebe que uma boa parte dos seus relacionamentos -se não quase todos - vai simplesmente deixar de existir quando você soltar as bagagens alheias. Dentre eles estarão inclusive os "laços sagrados".

Você compreende com clareza os motivos (antes nebulosos) das suas tristezas constantes. Aquelas tristezas que as pessoas à sua volta costumavam dizer que eram "sem sentido" agora começam a falar em voz alta. No fundo, de alguma forma, você sempre soube que só seria apreciado por algumas pessoas enquanto tivesse utilidade para elas.

Algumas pessoas simplesmente "se esquecem" de nós a partir do momento em que deixamos de fazer o que elas querem. Muitas vezes, evitamos de todas as formas possíveis encarar esse fato. Passado o impacto inicial, é um aprendizado libertador.

Livrar-se do excesso de bagagem não é apenas uma questão de escolha. É o único jeito de seguir em frente. Carregar as bagagens alheias é exaustivo e contraproducente. Para ser mais exata, de vez em quando, é preciso aprender a soltar inclusive as nossas próprias bagagens.

O ano passado eu aprendi a ser triste. Eu já era triste há mais tempo, mas vivia lutando contra isso. Nesse último ano, decidi aceitar. Deixei ir meu desejo de acolhimento e aceitação. Passei a confiar na mássima que diz que "de onde menos se espera, é de lá que não vem nada mesmo". (risos)

Entre os meus objetivos para este ano se incluem soltar o que resta dos pesos desnecessários e voltar a sorrir mais e naturalmente. Parece estranho mas aceitar as tristezas abre caminhos para as alegrias. É como se os sentimentos estagnados voltassem a fluir. É um compromisso que vale a pena.

Não pretendo agradar ninguém. Não pretendo me cobrar resultados. Decidi ser menos rigorosa comigo mesma. Pretendo apenas aprender. E algo me diz que será um bom ano.

Um ano em que aprendemos a deixar ir (inclusive aprendizados antigos) para aprender coisas novas é sempre um bom ano.

#expectativa #emoção

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