Leito de Procusto


Eu cheguei argila na cidade e na bagagem, doses arriscadas de inocência. Seguia sintonia fina às regras que me desmembrava lenta e obstinadamente no leito de Procusto. Estava seguindo os rastros do bando, buscando um bom posto na corrida, por alguma coisa, mas que coisa era? Eu não me lembro bem se algum dia eu soube. Eu alcancei a crista e bem ali à vista, eu fui vista de um jeito assim tão triste atualizando o eu-proscrito mais uma vez. Infinitas reticências... Seguia o bando, jogava um jogo limitante e desconfortável. Eu distante observava bem de perto o bando Não obstante, ainda assim eu ia bem demais na grande corrida do meu Eu-Espectro que me tinha saudades e visava o prêmio: Eu-Habitante-de-Mim. Eu então algoz de mim. Era eu uma equação de perdas e de conquistas, em saldo negativo, uma soma de variáveis na Terra-dos-Sem-Coração Eu, contínua esterilização de mim. O jogador valia suas escolhas vitoriosas E qual o valor do jogador que não queria jogar? Era melhor nem cogitar, tentar seguir sem captar as ondas do óbvio: as portas da rua. Mas eu jogava bem tão bem jogava em ignorar as portas da percepção que sinalizavam inequivocamente estarem trancadas todas as outras portas, e as portas do sangue - e especialmente estas! Eu, desolação de mim. Dragagem do meu fundo rio de ilusão. E na ausência de ópio a mente, ela própria, providenciou o oblívio, e encarregou-se do opróbrio em alucinação. A cidade-areia me apertava o nó de forca e, em ossos cobertos de carnes, Eu-Alma virava pó. Vivia uma vida que não era minha para me tornar independente da vida que eu vivia, mas a dívida da vida que eu levava, cobrava juros cada vez mais altos e eu tomada de assalto pelo nexus invisível do inexistente contrato, que a cada dia só me entristecia e me enfraquecia, consumindo o mais profundo de mim. E ainda semeava ideias no crescente salinizar das terras em que antes tudo dava, tudo vingava. E bem no olho do furacão, eu no centro de baixa pressão, arremessada naquela noite ao topo da escada, olhando as portas do céu que permaneciam fechadas. Mas há momentos em que se escolhe quais jogos jogar E há momentos se escolhe quais jogos abandonar e há um momento singular em que há de se arremessar todas as peças e chutar o tabuleiro. Um momento no qual se percebe que a alma não cabe no invólucro de contextos e pretextos criados antes de nós. Há o momento em que é desistir ou morrer Momento de retribuir a Procusto a pena do seu próprio leito Eu-Desconhecida-Habitante-de-Mim Eu, de mim, redenção. ********

#leitodeprocusto #poema #poesia

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