Sexo Estético e Civilizado (ou A Normatização do Sexo)


Não está longe o dia em que faremos sexo por telepatia, como mostrado em cena do filme O Demolidor, com Sylvester Stallone (1993).

O sexo está sendo atualizado. Em modalidades mais contemporâneas, já dispensa o contato físico com outra pessoa, como no caso da autosatisfação em frente às câmeras que chamam de sexo virtual. A imagem do "parceiro" é usada da mesma forma que se usa a pornografia: para fazer sexo consigo mesmo e manter o outro só na fantasia.

A masturbação hoje significa realização sexual, não é mais um mero quebra-galho. Algumas pessoas simplesmente só conseguem sentir prazer com ela. Trocam o sexo interativo pelo sexo individual. As pessoas que assim como eu consideram-na um mero quebra galho já estão ficando antiquadas e ultrapassadas.

Hoje vale o sexo bem enquadrado em "normas regulamentadoras", de preferência com certificação de qualidade reconhecida internacionalmente. Estamos no ápice da civilização corporal: submetemos os desejos do corpo aos manuais de etiqueta sexual no melhor estilo "Manual do Sexo Chique e Saudável".

A vagina está sendo higienizada e esterilizada, basta passar os olhos pela vasta produção da indústria pornográfica e cosmética. Os filmes mostram na sua maioria mulheres absolutamente depiladas e sequinhas. Não há fluidos corporais, suor, nadica de nada. A estética contemporânea pede em geral zero de excitação feminina que aparece apenas em gritinhos e gemidos artificiais. Parafraseando as lavanderias, agora temos "sexo a seco". Na indústria cosmética, são tantos os produtos para deixar a vagina "minimamente aceitável" que é difícil imaginar como era possível que nossos ancestrais primitivos a comessem in natura.

Não seria de se espantar se no futuro ela fosse suplantada pela sua modal de silicone. Enquanto o corpo e alma pedem contato sexual, erótico e interativo, nós os torturamos com sexo virtual, picolés de whey protein e academia.

Há razões para civilizar o corpo (e matar o espírito!). Por exemplo, são muitas as doenças transmissíveis, por isso temos a camisinha. Antes fosse essa a única chatice. A pior delas é que a vagina ideal, a vagina perfeita... simplesmente não existe! Todo o mundo tem uma ideia sensacional para aprimorar a pobre criatura imperfeita.

Hoje ela é a patinha feia. É considerada esquisita, meio alienígena. Precisa ser submetida a uma sessão torturante de depilação. Se possível, deve ter uma tatuagenzinha para enfeitá-la e disfarçar a feiúra. Ela não é naturalmente desejada como já foi um dia. Precisa de muito trabalho estético para ser aceita ou apenas tolerada.

A vagina é suja (vemos essa ideia em todos os lugares) e, para a nossa sorte, cientistas desenvolveram um arsenal cosmético para torná-la menos repulsiva à sensibilidade contemporânea: sabonete íntimo, desodorante íntimo, lenços umedecidos para dar "banhos de gato" de hora em hora na maldita, saborizante para sexo oral e até colônia!

Logo logo ninguém vai mais saber que gosto tem, exceto alguns remanescentes dos neandertais (sempre tive vontade de usar a palavra neandertal em algum dos meus textos sem soar pedante, acho que agora ficou perfeito). Gente que gosta de cair de boca na menina hoje é vista como pré-histórica. Pior do que isso, muitos caras assumidamente tem nojinho, jamais botariam a boca "naquilo" e se vangloriam disso enquanto lustram o chifre. Se tiver um pelinho nas imediações, ficam nauseados pelo resto do dia. Isso é um fenômeno contemporâneo. O pessoal um pouco mais velho (um viva pra eles!) apreciavam bem faceiros um pastel de pelo! Quanto mais recheada e suculenta, melhor.

Logo logo o sabor da vagina será discutido apenas por intelectuais da nova geração em algum "clube do saber". Ninguém terá realmente provado uma (são intelectuais, ora bolas!), mas todos se referirão com romântica nostalgia, suspiros e um olhar sublime à vagina real, cuja memória será preservada nos livros de história (historiadores costumam preservar muito bem aquilo que não utilizam).

A pornografia higienizante fez questão de "secar" a vagina, literalmente. Os filmes em "close" mostram que a moçoila deve ficar sempre sequinha e asséptica. Os novatos caem no conto da estética e, quando encontram a menina excitada, acham que ela está doente ou é ninfomaníaca.

Imagino que muitos homens hoje se questionem como seus ancestrais "copulavam" antes do KY (a palavra "ancestrais" não combina com a expressão "faziam sexo", por isso aqui no meu texto os nossos ancestrais "copulavam" - os livros de história já tratam o tema com sobriedade austera: cópula, coito, intercurso sexual... e o sexo fica chato quanto uma planilha de produção de arroz).

Hoje em dia vários homens se espantam com a periquita aquática (é um consenso nas conversas da mulherada que gosta de brincar e de falar da brincadeira). Faltou uma aulinha sobre excitação feminina. Vagina molhada na indústria pornográfica virou sinônimo de aberração e, infelizmente, na vida real também. É uma coisa estranha, cena para pornô ficção científica, ou fetiche específico para um público seletivo.

Há hetero que considere até nojenta, um mal necessário... vai entender. Seja como for, a estética da indústria pornográfica contemporânea exige vagina seca, límpida, inodora, insípida e incolor. Já imagino mulheres levando babador e guardanapos para a cama para não assustar seus parceiros. É provável que a preocupação excessiva e a artificialidade do ato seque a miserável de uma vez por todas.

O pênis não saiu ileso da estética contemporânea. Há muito homem complexado por aí que acha que precisa ter o pênis do tamanho do fêmur, que é pré-condição e única condição para um sexo bem feito. Acham que a mulherada exige isso. Algumas criaturas desiludidas que nunca tiveram um bom sexo na vida também culpam o tamanho do bicho. Conversando com elas, você percebe que o motorista era um canguru cego dirigindo um carro desgovernado em alta velocidade na Serra do Rio do Rastro. Desastre na certa: o moço era tão performático que a moça saía de cena e ia para a platéia.

Esses caras quando encontram uma mulher satisfeita com o bichano normal ou acham que a moça é inexperiente ou acham que é tola ou já pedem em casamento no meio da primeira "cópula".

Os mais prejudicados pela imagem estética do grande e poderoso falo precisam transar com dezenas de mulheres sempre questionando o que elas acham do pau. A normalidade do pau está causando muita neurose por aí.

Há caras mais diretos que mandam fotos do amigo (um book inteiro de todos os ângulos com as respectivas medidas) e querem saber o que a mulher acha antes de marcar um encontro.

Diga-se de passagem, a sedução foi assassinada. Ninguém parece ter dado falta dela e mandado investigar. Não raro, surge do nada algum desconhecido enviando email (essa coisa pré-histórica) com fotos do amigo e um número de telefone esperando um milagre. Coisa mais sem sina, continuam "à espera de um milagre" (trocadilho infame).

A coisa tá feia pra todo o mundo. O pavor da rejeição está acabando com a surpresa e a descoberta.

Seguindo a tendência contemporânea de colocar lajota nos pátios das casas no lugar do antigo gramado e flores, o pênis e os demais apetrechos estão ficando com um aspecto bem "clean" e civilizado, exatamente como os pátios das nossas casas.

Ninguém mais "tem saco" para aparar o gramado. O dono "da casa" já manda arrancar tudo de uma vez. Por outro lado, tivemos uma safra recorde de mulheres com nojinhos de todos os tipos. Dizem gostar de sexo (que sexo?) mas tem nojo do corpo alheio. Eu acho que prefeririam ter nascido no contexto do filme.

Seguindo a tendência de "bombar" o corpo na academia, tem macho "bombando" (ou melhor, bombeando) o bichano com aparelhos que prometem dois centímetros a mais ou uma bitola maior. Daí um pouco frustrante quando o melhor amigo fica inchado e dolorido ou estirado e flácido. Ossos do ofício.

Há quem prefira seguir a tendência de tirar a touquinha do rapaz e deixá-lo ao relento. Na contramão destes, tem macho que só mergulha na caverna aquática com long de neoprene, escafandro e pé de pato.

Os modismos contemporâneos estão deixando cada vez mais as pessoas insatisfeitas com o que possuem. Há gente amaldiçoando a natureza e castigando o corpo.

Em um futuro distópico, o contato sexual será abolido por questões de higiene, saúde pública e civilidade (quiçá, com um pouco de sorte, já estarei decomposta até lá). Mulheres possivelmente usarão talco à base de sílica ou carvão ativado para secar de vez a bichinha, já convencidas de que ter vagina é maldição. Homens carregarão infelizes seus mortos (mas finalmente bem disciplinados) companheiros. Todos frustrados com o que possuem, sentindo-se traídos pela Mãe Natureza.

É o momento em que o erotismo dará lugar ao álcool gel. O sexo será precedido por um contrato definindo regras de quem pega no que, quando e como e com qual intensidade. Tem gente por aí que já aderiu à combinação do roteiro. Seu entusiasmo para o sexo é o mesmo que para o cálculo do imposto de renda. Essa fase será apenas uma transição antes da masturbação telepática.

Os vanguardistas, aquele povo que está sempre a frente do seu tempo, já profetiza o futuro com a sua abolição do contato com os fluidos sexuais. Hoje inspiram milhares de jovens ao usar sabonete antibacteriano e álcool gel para a masturbação assistindo a um pornô clean, ética e politicamente correto.

E antes que alguém diga alguma coisa: sim, eu tenho implicância com álcool gel. Tudo tem limite nessa vida! *****

#sexo #desejo #estética #norma #comportamento

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