O Tamanho das Tristezas


Há algo de triste em tudo o que escrevo porque a tristeza é o que eu bem conheço. E só posso escrever sobre o que é familiar. Por mais alimento que forneça às alegrias, as tristezas que são apenas meninas não desaparecem mesmo quando os problemas arrefecem mesmo quando tudo parece transcorrer mais leve, há algo de triste nos meus olhos são as minhas tristezas-meninas que há tempos sobreviviam sem brincar. Quantas foram as vezes em que, ingênua, quis me livrar de minhas meninas deixando-as em casa sozinhas sem poder cuidar de si mesmas. Foi quando percebi (quem diria!), o evidente e ignorado parentesco: Ingenuidade é prima-irmã da Crueldade. Negligenciadas e enfurecidas, as meninas se agigantavam em predadoras prestes a me devorar. Chegando em casa, espaço não havia ocupavam todos os cômodos, e as meninas que já não eram assim tão meninas sugavam todas as minhas energias. E tanta dor e cansaço eu sentia que até pêlos e os fios de cabelos pareciam arder. Eu que nem sabia que o mesmo acontecia se eu chorasse encerrada em casa. Erro crasso é chorar dentro de um quarto, as tristezas se agigantam ocupando todos os espaços e eu vou me apequenando, vou ficando sufocada, com o peito esmagado, uma corda invisível no pescoço e o coração feito um tambor. Liberei os espaços, destranquei as portas vez ou outra, elas vertiam pelos poros da minha pele sobre o papel e viajavam com as palavras o mais longe que pudessem ir. Havia tanto para ver mas havia um lar para retornar. Ao retornar para casa, buscavam exaustas um colo tão menos infladas tão mais dóceis e relaxadas que era possível vê-las rir do mundo viram, rir de mim e de si mesmas. Insignificantes insignificâncias... Às vezes, eu mesma as levo a passeio Naqueles dias em que não me encaixo em mim transbordo e esvazio com um ímpeto incontrolável de chorar. E quando é chegada a hora do mar, não posso perder a hora do mar, onde lágrimas salgadas, ínfimas gotículas do oceano humano, se fundem com vastidão do mundo. E minhas tristezas se apequenam brincando de enterrar os pés na areia... Hoje não as deixo mais presas em casa, procuro algum lugar tranquilo, uma praça vazia, uma enseada, ou a sombra de uma árvore. Ouço minhas tristezas-meninas, mostro-lhes as coisas do mundo: as folhas secas pelo chão, o sol na pele, o vento no rosto, entramos na água fria e quando a pele arrepia, e o coração dispara, as minhas tristezas-meninas acham graça. Foi numa desses momentos que elas compartilharam o antes irrevelável segredo com suas vozinhas tão finas: que protelar não resolve! o adiamento é fermento expande tristezas em sofrimentos dores- tamanho-do-mundo. Tristezas retornam à meninice no mar na meninice de amar com a insana malícia dos castelos de areia construídos para serem desfeitos. Diante do mundo e cheias de espanto, o tamanho das minhas tristezas é proporcional aos momentos em que as levo a passeio. E se há algo de triste em tudo o que escrevo é porque a escrita é uma das nossas brincadeiras em comum.

#tristeza #sofrimento #poema

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