A Catarse


Eu estive lá na floresta negra de árvores mortas e geométricas, envolta em brumas: paralelepípedos feitos de barro, ou de pedra rosácea, já não lembro. Lembrança precariamente recuperável de um tempo em que a dor fez confuso. Eu tive minhas carnes roídas pelos vermes da morte ainda em vida. Estava eu mesmo viva naquele tempo de brumas? Era o lugar onde a pura sorte - o abraço gelado da Morte- era o esperado alívio da agonia. Só pela dor me era dito que ainda vivia. Senti os nauseantes odores e sabores adocicados da putrefação, enquanto os vermes se alimentavam da minha carne. Eu sabia que, em verdade, queriam chegar ao meu coração. Era o preço de mostrar minhas fraquezas (quase) humanas. Prostrada, implorava aos céus morte rápida e humana. Que graves pecados cometidos não mereceriam misericórdia? Tentei arrancar meus predadores em transe frenético da superfície da pele: com as unhas, com as lâminas, com o que houvesse pelo caminho. No banho, esfregava o corpo e me ardia a pele machucada pela água morna. E a dor que sentia na carne não se comparava ao desespero de perder a própria imagem no espelho que naquele instante só refletia a parede atrás de mim. Era a dor de continuar a ser mero sopro de vida, a rastejar no mar de rostos indistintos, frios e perfurantes como estalactites. Se eu era sopro, se eu era verme, por que os vermes, meus irmãos, me faziam de alimento? Por que confusa sina não me reconheciam irmã e, canibais, me consumiam? Esperava sentir o abraço morno da terra, imiscuir-me nela e desaparecer - ela que sempre pensei que estaria comigo... Mas eu já não a via, ela parecia há muito perdida abaixo do concreto e do asfalto. Já não conseguia plantar-lhe meus pés e florescer, eu jovem bonita, flor de mulher que, ao desabrochar, fenecia. Analgésicos não me podiam aplacar tamanha dor, e ao meu redor, maledicências confusas ecoavam: "Fraca!" "Sem fé!" "Apanhou pouco da vida!" E eu que nem capaz era de recordar a última vez que a Vida havia sido ao menos gentil comigo. E eu não lembrava

da última vez que eu não havia sido torturada pelos meus (?) pecados Ao menos havia pecados? Eu não via. Creio até hoje que não havia. Buscava desesperada um sentido. Se eram meus os pecados alheios ou dos quais fui apenas bode expiatório? Fui provavelmente apenas seu repositório? Tamanha insanidade! Queria a miséria - a que chamavam de Vida - que eu os absorvesse feito esponja e não mais pudesse dormir profundo, sobrepujada que estava pela culpa, por tudo aquilo que eu não havia feito. E quando estive absolutamente exausta, a face da Morte me parecia a aparência de um acalento confortável, muito mais amigável que a miséria cruel da vida. E quando finalmente, por exaustão, adormecia retornavam os tais vermes e me despertavam, com a dor, o cheiro, o gosto, e o sangue que escorria, a roer minhas carnes, na divisão milimetricamente perfeita que faziam de mim

os meus vermes burocráticos. E no final de tudo, tudo o que eu fiz, tudo o que restou dos meus sonhos e planos, das minhas lutas e dos meus entraves, trouxe-me a este ponto: o desejo de que o sossego da morte aplacasse a agonia de servir de alimento ainda em vida aos antecipados ansiosos vermes da morte. Quisera eu que, por sorte, já tivesse partido, quando chegassem a mim para consumir os vestígios do período em que andei sobre a Terra, procurando inerme sem sucesso terra e água, sol e chuva, vento e calor - quiçá um vislumbre ou miragem de amor- no interminável inverno que fazia tremer (quase congelar) com os lábios roxos, a pele pálida, o suor frio no verão de trinta e oito graus. Ontem à noite eu vi na íntegra o filme que só conhecia em pedaços, pedaços confusos e esparsos - um roteiro que a angústia me impedia de ver. E vi além do que o filme exibia: vi que a distância no tempo e no espaço, relativa e insignificante, quando a mesma dor aproxima distintas histórias. Pois que o sofrimento (e somente o sofrimento)

as torna tão espantosamente semelhantes! Em algum ponto dos fios tecidos pelas Moiras, são os mesmos vermes da morte, - no assombroso encontro que houve nas brumas - do eco de duas dores, no roer frenético das carnes de duas solidões. Só restaram em vida cumprir prazos e contratos e aguardar o morno final como uma dádiva, um dóros, uma graça! que acalenta o peito trêmulo em meio ao mal e à desgraça quando estivemos, em tempos distintos, em espaços distintos, em algum ponto incerto de nossas vidas, confinados... ... dentro do mesmo muro, dentro da mesma intransponível muralha em que eu me reconheci na sua dor tamanha semelhança da minha: a visão terrível da sua dor, a lembrança dolorosa da minha, e minha despedida às lágrimas do passado, lágrimas de tristeza e profundo alívio que senti com a experiência catártica que foi finalmente assistir The Wall do início ao fim. *******

#catarse #dor #thewall #muro #morte

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