Retiro para a Sensibilidade


Há alguns dias, eu não saio. Estou em um retiro na minha própria casa. É um retiro de férias aos meus sentidos.

A rua periodicamente me cansa com suas multidões, seu frenesi de sons, ruídos, conversas, buzinas, imagens, motores de carros, outdoors, sirenes, cheiros, iluminações e atropelamentos. Meus sentidos estavam sendo atropelados pelo excesso de tudo: excesso de pessoas, de sons, de cores, de imagens, de músicas (ruins), de gritos, conversas, de temperos, de opções gastronômicas...

Há dias que me encanto pelo silêncio. Não o completo e inacessível silêncio, mas o silêncio composto de ruídos longínquos. Há dias que o principal som que me acompanha é o ruído branco do ventilador. Que permaneça assim por mais um tempo. Faço algumas pausas no silêncio para os filmes de Woody Allen, para as músicas de Mumford And Sons e para a voz do meu marido.

Minha audição estava exausta das motos sem escapamento, dos prédios em construção, das conversas altas, das cantadas baratas, dos gritos das crianças e dos gritos com as crianças, do barulho dos carros e ônibus, das músicas ruins que tocam em todos os lugares. Nesses momentos, quaisquer músicas de que não gosto me deixam cansada.

Achei necessário dar uma pausa no mundo lá fora depois que o assovio agudo e insistente de um cara em uma lanchonete lotada - a única aberta no feriado- me causou um dor lancinante nos ouvidos e na cabeça. Quase enlouqueci. Estava a ponto de irromper fúria carregada em impropérios. Meus sentidos estavam engarrafados como o trânsito caótico das grandes metrópoles.

Meu tato andava sobrecarregado com o calor e o suor da rua. A mesma rua, a mesma praia que adoro passear, às vezes se torna insuportável aos meus sentidos. Minha pele estava cansada e por algum motivo que desconheço, a mesma areia fofa que gosto de andar, estava machucando o meu tato. Dei-lhe poeira de casa, limpeza e faxina. Dei-lhe o ar fresco vindo da varanda que massageia suavemente a minha pele e agita os pelos dos meus braços. Dei-lhe massagem nos pés e água fria.

Há dias dou descansos ao meu olfato com o aroma de comida fresca preparada em casa e com os incensos de massala que escolho. Meu olfato estava saturado, cansado de ser invadido por odores alheios, perfumes adocicados e enjoativos, frituras em quiosques, e o autoritário e impositivo bacon sendo frito em cada esquina por onde eu passe, a qualquer hora do dia ou da noite.

Há dias dou descanso ao meu paladar com comida caseira, temperos simples e suaves, café passado, chá de camomila e água. Estava cansada da mistura abusiva de temperos, de sabores indistintos e confusos dos grandes restaurantes, onde o gosto do alecrim misturado com tantas outros temperos já estava se parecendo com o gosto de protetor solar fator 60 quando escorre e pinga nos lábios. Paladar saturado não sente sabor de nada.

Há dias dou descanso à minha visão com os poemas de Carlos Drummond de Andrade, os contos de Caio Fernando Abreu e Nelson Rodrigues.

Minha visão estava exausta das luzes coloridas e artificiais, de telas de led, de sol forte, de poluição visual, de pop up's e notificações, de excesso de imagens e cores. E em casa, visto pijamas de cores neutras.

Há dias, restrinjo meu tempo de exposição às telas porque seu brilho me deprime. Restrinjo meus escritos ao grafite e papel. Só no último instante, digito no computador e publico. Exposição à tela do computador costuma me deixar soturna, abatida, áspera e irritada. O uso papel não é exatamente ecológico, mas certamente é antidepressivo.

Estas são pequenas férias periódicas que preciso tirar sob a forma de um retiro em minha própria casa: um retiro do sensível, um descanso para a sensibilidade.

Há dias eu também dou descanso às portas da percepção. Não me permito captar - com meus sitemas de alerta constantes- quaisquer perturbações aos meus instintos e ao meu sossego. É uma espécie de alienação voluntária terapêutica por um período delimitado. Preciso fazê-la periodicamente para manter o bem-estar, senão adoeço.

Há dias dou descanso às minhas emoções. Não as analiso ou racionalizo, apenas respiro e as deixo fluir assim como elas me aparecem. Não mergulho nas minhas memórias nem faço projeções. Não empreendo viagens no tempo passado ou futuro. Estou vivendo no tempo presente.

Há dias observo o tremular das penas do apanhador de sonhos com o vento que entra pela janela do meu quarto. Com isso, consigo abrir a expressão do meu rosto, dar descanso aos meus olhos, ao meu humor e melhorar a minha disposição. Dificilmente algo me exaure tanto quanto o excesso de estímulos. Encontrar o equilíbrio entre a necessidade de interação com as pessoas, com o mundo lá fora e a necessidade de silêncio e isolamento nem sempre é fácil, mas é uma necessidade. Há dias protejo a minha sensibilidade. Ela tende a ser preservada do mundo quando me entrincheiro segura no sofá da sala atrás de uma barricada protetora de livros que estou lendo ou que pretendo ler num curto espaço de tempo.

Não existe espaço perfeitamente seguro quando se está saciada, e entra pela janela um cheiro de alho frito vindo do apartamento ao lado às três horas da tarde. Ficar nauseada, às vezes, é inevitável.

A mesma sensibilidade que permite captar sutis belezas escondidas nas multidões, as sutis emoções em ambientes lotados, e os detalhes ínfimos da natureza e existência também pode representar um tormento quando invadida por uma avalanche de estímulos. A alta sensibilidade precisa de descansos terapêuticos e periódicos.

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#retiro #descanso #altasensibilidade #sensibilidade #gratidão

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