Sobretudo


Por sobre o mundo, andam exaustos os trabalhadores, repetindo a si mesmos que o trabalho enobrece como consolo pelo tempo perdido. Tempo de vida... Por sobre o mundo, andam os frágeis amantes, esgueirando-se aos esconderijos buscando sôfregos algumas carícias, para tolerar uma vida sem sentido. Buscam sentir algum sentido... Por sobre o mundo, andam os obesos famintos, angustiados de penúria amorosa, vivendo na incoerência que é ser fartura da falta e excesso da ausência. Famintos... Por sobre o mundo, andam os fanáticos da comida vendo maldades na gastronomia evolutiva, soerguendo-se da natureza selvagem, alçando-se à condição de civilizados, superiores e eleitos, enquanto carecem de nutrientes específicos. Gurus que consideram os demais seres humanos uns fascínoras sanguinários. São os eleitos... Por sobre o mundo, andam os músicos de esgrima, conciliando boçais elogios à vulgaridade com louvor sublime em plágios endêmicos de melodias, na corda bamba entre o pecado e a redenção. Antinomias... Por sobre o mundo, andam homens temerosos do amor, consumindo compulsivamente fúteis e efêmeras emoções, acumulando sexo fácil, rápido e vazio, corajosos defensores do medo de amar e do medo da vida. Corajosos covardes... Por sobre o mundo, navegam os piratas da hipocrisia, anestesiando sensibilidades com açucarada simpatia, pilhando dignidades, assassinando empatias com criminosa ousadia. Bandidos da desarmonia! Por sobre o mundo, andam cruzados e cruzadores, pioneiros nada originais em seus bons intentos, convertendo violentamente outros às suas ideologias. Porque a bondade deve ser imposta e engolida - se à base de tortura, não importa, é paga justa. Tudo vale em nome da bondade, até tortura! Até tortura... Por sobre o mundo, proliferam os idiotas da moralidade, reproduzindo-se como ratos de esgoto, defendendo o amor divino e a tolerância, enquanto abandonam à própria sorte as suas crianças: suas filhas sensuais, seus filhos homossexuais. Moralidades... Por sobre o mundo, andam os doentes e os lunáticos... (Que há para falar sobre esses pobres desgraçados?) Eles desenharam um caminho próprio distante da uniformização do mundo. Estão em outro mundo, bem longe do mundo e não querem voltar. Lunáticos dissonantes... ou são apenas inteligentes? Por sobre o mundo, andam os iludidos da paranoia, solitários acreditando serem perseguidos, por não suportarem a dor de se sentirem abandonados. Por sobre o mundo, andam os iludidos da religião, solitários acreditando serem amados, por não suportarem a dor de se sentirem abandonados. Paranoicos religiosos... Por sobre o mundo, andam os tristes solitários que assumindo a dor de serem abandonados, aprenderam a semear e cultivar alegrias... Por sobre o mundo, a insignificável, inestimável e empoeirada vida há muito está cobrindo o mundo como um sobretudo.

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