Precárias Vaidades


Você não viu quando eu saí do inferno Era escuro e frio, eu não tinha rosto nem nome Procurei um lugar para me abrigar Procurei uma faísca para aquecer meu coração pesado e amortecido E tudo o que encontrei foram mapas e placas Mas eu não queria percorrer os caminhos traçados antes de mim Eu queria ter de volta a minha sensibilidade: ela não teve defesas contra este mundo. Todas essas pessoas anestesiadas já não se espantam frente ao horror Elas não vêem o que eu vejo? Pais jogando suas crianças nas fogueiras em praça pública em troca de aplausos de uma multidão que, se tivesse coragem, também queimaria suas próprias crianças. Não me diga que eu preciso sentir menos, pois quando eu senti menos, eu perdi minha identidade. Você entregou seu coração por umas poucas regras, uns frágeis modismos e uns poucos aplausos. Eu procuro encontrar alguma verdade nas suas mentiras São tantas emoções narradas e tão pouco amor sentido! Porque o amor, ah o amor, esse tem o poder de ver muito longe, além da linha do horizonte, onde a razão não alcança Quando você troca os segredos das suas crianças por aplausos às suas precárias vaidades autoindulgentes a multidão joga as suas crianças na fogueira Porque são suas as crianças Antes queimem as suas do que as dela! Aquelas que aplaudem hoje a sua pretensa honesta coragem Queriam estar todas em seu lugar Elas aplaudiriam, não importa o que você fizesse E, com a mesma devoção, chutariam suas fragilidades, assim que você caísse Porque foi você que caiu, não elas! Porque ser famoso vale mais do que ter coração! Você não está interessado em conhecer as minhas palavras Troca depressa o discernimento pelo canibalismo retórico E fala de amor como se o amor fosse cego: um cego moral que anda aos tropeços nesse mundo. Ah Mentiroso, por favor, não chore! Eu não vou pintar de presente um cenário cor-de-rosa Como também não serei eu a lhe entregar um cavalo de tróia Nem contar mentiras para lhe afagar o espírito Pois que viva amando a honestidade do Grande Irmão! Que ele, quando tiver chance, vai lhe devorar vivo Não vou contar-lhe histórias agradáveis Sobre o que nos espera a todos lá fora Eu vi o mal de que são capazes as pessoas de bem quando dão brados e vivas à razão! Você acha que o mal é guerra e violência O mal é anterior a elas, é a sua origem, meio e fim Essa é a sua grande cegueira, amigo! O mal está em todas as esquinas, visita todos os hotéis e casas... E enquanto todos querem incendiar o Mal em praça pública ele incendeia nos olhos de toda a platéia em volta da fogueira. Porque todos querem incendiar o Mal em praça pública E, se eu permitisse, caro mentiroso, você também me jogaria na fogueira para expiar os seus pecados: projeta, expurga o mal em mim e se absolve antes mesmo de ter sido sequer julgado. Há um preço justo a ser pago, você acredita, para expiar de si e da platéia todos os pecados: é so queimar as suas crianças e as crianças de suas crianças... O mal não se importa ou se intimida O mal não sente nada, essa é a ironia, porque o maior mal nesta vida é perder a capacidade de espanto. Você não viu quando eu saí do inferno Era escuro e frio exatamente como no lugar em que estamos agora, onde há nomes e rostos e corações anestesiados. Procurei um lugar para me abrigar Acendi meu fogo e aqueci meu coração E descobri que apenas não se extingue a chama que é transferida de tocha a tocha. Para se acender um coração é preciso correr o risco de queimar as mãos E o risco vale o benefício de recuperar a sensibilidade Não existe outra forma a não ser a luta feroz contra o entorpecimento com a única arma que temos, que é o espanto. Eu conheci a face vergonhosa da derrota quando me libertei do vício torpe do sucesso E hoje eu reconheço meu nome quando é chamado. Elas culparam o coração por todos os seus erros E idolatraram a razão por todos os seus feitos Especialmente aqueles que as transformaram nas peças torpes de um tabuleiro, aquelas mesmas com as quais o meu caro hipócrita tão bem joga. E as consequências disso nós sabemos bem qual é: quando se cala o coração, as crianças são queimadas em praça pública, para alimentar o fogo das nossas precárias vaidades Eu perdi todas as esperanças E por isso mesmo sou a pessoa certa para acompanhá-los no caminho de volta Eu sei que só devemos manter os corações aquecidos para podermos prosseguir em nossas jornadas. Não me diga para sentir menos com os lábios da sua hipócrita anestesia Não diga que espanto é bobagem ou que empatia é histeria Porque é somente quando se enfrenta o medo e se olha o mal direto nos olhos, o mal que vemos diante do espelho, somente quando não se evita o temor, nem se foge do desespero, que se consegue perceber a beleza que existe abaixo do céu Deixe as minhas palavras arrebentarem a sua cabeça Você pode refazê-la mais tarde, eu acredito nisso. Deixe minhas palavras abrirem o seu coração Porque o coração consegue ver além dos olhos O coração enxerga além de nossas misérias e precariedades O coração enxerga o que a vaidade cega Deixe minhas palavras arrebentarem a sua cabeça Se elas abrirem o seu coração Ele vai permitir que você saia e outros entrem Às vezes, precisamos deixar sair o excesso de nós para abrir espaço para o resto do mundo. Grite. Vocifere. Deixe minhas palavras retumbarem em sua cabeça Essa é a dor do golpe que pode despertar um coração E para você, caro mentiroso, seriam necessários milhares deles Porque, amigo, com todo o horror que há lá fora, sem coração, não há coragem para seguir a vida.

#vaidade #platéia #ego

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